Eu recebo currículo do país inteiro. Antes de chamar alguém, eu não olho o nome da faculdade — eu vou atrás da grade curricular do curso e calculo quanto tempo eu vou gastar ensinando o que ela não ensinou. Aqui embaixo eu conto por que cheguei nisso, e digo também as três coisas pra que o canudo ainda serve, porque não é zero.
Resposta rápida: no mercado privado de tecnologia, o diploma sozinho não me diz se você sabe fazer — então eu não contrato por ele. Quando o currículo chega aqui, eu pergunto qual faculdade você está fazendo, busco a matriz curricular do curso, leio o seu roadmap de estudo e estimo quanto tempo eu vou gastar te ensinando o resto. Três motivos me trouxeram até aqui: a educação virou número; a grade não acompanha o que o mercado implementa; e tem faculdade usando inteligência artificial pra corrigir prova e atender aluno sem ensinar o aluno a usar inteligência artificial. Mas o canudo continua valendo em três situações concretas: professor e pesquisa, concurso público e multinacional que exige por formalidade — inclusive pra mudar de país. E a regra que vale pra todo mundo: a empresa privada valoriza quem sabe fazer. Se você quiser entrar no mercado, pegue curso, desenvolva projeto seu e bote em produção.
Gravei esses 14 minutos no canal @josimarjmv em 22 de julho de 2026, direto, sem corte. Assista e leia junto: aqui embaixo eu digo a mesma coisa com mais calma, com duas checagens que eu fui fazer depois de gravar e com uma nota de cronologia no fim, porque uma coisa mudou de julho pra cá.
🎧 PREFERE OUVIR? · 15 min
Este artigo também é um episódio do podcast Josimar JMV | Em Produção — o mesmo vídeo, só o áudio, normalizado pra fone.
Antes de eu falar qualquer coisa sobre diploma, a carteirada. Eu sou contratante: dono, CEO, CTO, o nome que você quiser, de uma empresa de tecnologia. E eu sou hands-on — eu boto a mão na massa. Faço sistema, coordeno equipe de desenvolvimento e pago a conta no fim do mês. Não é opinião de papagaio de pirata da internet: é de quem abre a vaga, lê o currículo e depois paga o salário.
E eu começo com a frase que eu usei no vídeo, porque ela resume o meu incômodo: a fábrica de inúteis está aberta. Não brigue comigo antes de ler até o fim, porque tem ressalva importante no meio e tem três casos em que eu mesmo digo pra você fazer a faculdade.
A educação no Brasil foi jogada no lixo quando transformaram ela em número. A ideia original era boa e valeu demais: o pobre tem que ter faculdade. Só que aí abriram faculdade pra todo lado e a qualidade do negócio despencou. Meta de matrícula batida, gente formada, gráfico bonito — e lá na ponta, na hora de sentar e trabalhar, não sai.
Depois de gravar eu fui atrás do tamanho dessa expansão, porque número meu não vale, número do órgão oficial vale:
Tem um outro andar desse problema, que é lá embaixo, na educação básica: tem gente saindo do ensino médio sem conseguir ler direito, porque não pode dar bomba e ninguém é expulso — é "convidado a se retirar". Eu já escrevi por extenso sobre isso quando falei da educação do fingimento e da faculdade que eu montei dentro da minha empresa, então aqui eu só deixo registrado que o buraco começa antes da faculdade.
Esse é o motivo que mais me custa dinheiro. O que se ensina hoje na faculdade não é o que o mercado está buscando, precisando e — o pior — implementando. O sujeito fica quatro anos lá dentro e me manda um currículo dizendo Java com Spring Boot, e é basicamente só isso.
Antes que alguém me acuse de implicância com linguagem: tem muita gente usando Java, e Java não é o problema. O problema é outro, e é mais simples: ninguém ensina o aluno a estudar share de mercado. Quantas empresas aqui na minha cidade usam aquilo? Quantas vagas abriram nisso nos últimos doze meses? Onde o dinheiro está sendo gasto? Sair da faculdade sem nunca ter feito essa pergunta é sair com um currículo pobre — e não é culpa do aluno, é do desenho do curso.
Foi por isso que eu montei uma mini faculdade dentro da minha empresa pra ensinar meus júniores e estagiários a trabalhar. Não por modinha: porque a faculdade estadual da minha cidade falha, e aqui não tem federal de tecnologia. Se eu esperar o mercado me entregar gente pronta, eu fecho. É a mesma conclusão que me fez dizer que eu prefiro contratar quem fez curso técnico quando tenho dois currículos iguais na mesa.
Esse é quase uma piada, se não fosse o preço da mensalidade. As faculdades estão usando inteligência artificial pra atender aluno, pra corrigir prova, pra emitir diploma. E não estão ensinando o aluno a usar inteligência artificial.
Qual é o sentido de um curso de tecnologia ensinar tudo, menos a ferramenta que a própria instituição já adotou na operação dela? Se é pra ganhar dinheiro, tudo bem, cada um sabe do seu negócio. Mas aí não me venda o diploma como preparação pro mercado, porque no mercado essa ferramenta já está em produção. Eu testo candidato com IA e sem IA de propósito — e quem nunca usou aparece na hora.
A ressalva que eu faço questão de fazer: são todas as faculdades, privadas, estaduais ou federais, que não servem pra nada? Não, não são. Existem faculdades acelerando, com grade viva e professor que está no mercado. O meu problema é com a maioria. E eu sei que é a maioria pelo lugar mais chato de saber: eu abro vaga e recebo currículo do país inteiro. Quando eu anuncio uma vaga de SRE, engenheiro de confiabilidade, o perfil que chega é de quem se formou há vinte anos, outra pegada. Quando eu anunciava estágio, o que chegava dava vontade de chorar.
Agora a parte prática, que é o motivo deste texto existir. Eu não bato o olho no nome da faculdade e decido nada. O que eu faço é isto:
Repare no passo 4, porque é ele que muda a conversa. Baseado no tempo que você gastou na faculdade, eu calculo o tempo que eu vou gastar te ensinando outras coisas — coisas que não têm nada a ver com o que você viu lá. Esse cálculo é custo da minha empresa, e ele entra na decisão junto com salário e prazo. Não é maldade, é planejamento.
O passo 2 trava mais do que devia. Um monte de faculdade não tem a grade curricular no site. Você procura o curso, acha a página bonita com foto de laboratório, e a matriz curricular não está lá — tem que entrar em contato com a instituição pra pedir. Isso, pra quem está do meu lado da mesa, é absurdo.
Depois de gravar eu fui checar se isso é só má vontade ou se tem regra. Tem regra, e ela é clara:
(Checagem minha, feita em 21/09/2026, no texto oficial publicado no Diário Oficial: a Portaria Normativa MEC nº 23, de 21 de dezembro de 2017, diz no art. 99 que a instituição deve afixar as condições de oferta do curso informando, no inciso IV, "a matriz curricular de todos os períodos do curso". E o § 1º, na redação da Portaria Normativa nº 742/2018, manda a instituição manter "em página eletrônica própria" esse registro oficial atualizado, mais a íntegra do PPC — o projeto pedagógico —, "com componentes curriculares, sua duração, requisitos e critérios de avaliação". Ou seja: a grade no site não é cortesia da faculdade, é obrigação dela. Quando você precisa ligar pra secretaria pra pedir a matriz, a instituição está descumprindo uma norma do MEC — e, no meu critério, isso já é um sinal sobre como ela trata informação.)
Aqui eu paro de bater. O diploma sozinho não serve pro mercado privado de tecnologia, essa é a minha frase e eu assino. Mas "sozinho" e "pro mercado privado" são as duas partes que a manchete come. Existem três situações em que ele serve, e serve muito:
| Onde você quer chegar | O diploma… | Por quê |
|---|---|---|
| Dar aula, bacharelado, pesquisa | é obrigatório | É o próprio ofício. Sem discussão. |
| Setor público, concurso | é requisito | O papel é exigência formal do edital. |
| Multinacional, mudar de país | abre a porta | Formalidade — mas você ainda vai ser testado no que sabe fazer. |
| Mercado privado de tecnologia | não decide nada | Aqui vale o que você já botou em produção. |
Teve um desenvolvedor que trabalhou comigo uns seis anos. Entrou aqui autodidata, sem faculdade, e destruía — gênio, desses de resolver o que ninguém resolve. Durante o tempo em que esteve comigo, ele fez faculdade. Não porque precisasse tecnicamente: ele fez porque queria se mudar pra Portugal e trabalhar lá, e exigiam o canudo.
O diploma dele não serviu pra nada no sentido técnico. Ele já sabia tudo o que a faculdade ia mostrar, e provou isso seis anos seguidos na minha operação. Mas serviu no sentido burocrático, que era o que ele precisava: foi o papel que o deixou entrar no país e ser contratado lá. É exatamente por isso que eu não digo "rasgue o diploma" — eu digo "saiba pra que ele serve na sua história".
Muita gente me manda mensagem no Instagram e comentário no YouTube perguntando o que fazer no começo de carreira. A primeira pergunta nunca é "faculdade sim ou não". É: o que eu quero pra minha vida? Respondida essa, o resto é conta. E a conta que eu faço é esta:
Quem passou quatro anos botando projeto no ar chega com quatro anos de experiência, e quatro anos de experiência é pleno. Passou pelo estágio, passou pelo júnior, pediu transição. Ou nem isso: resolveu empreender. Já quem tem só o canudo chega pedindo a primeira vaga — e olha a armadilha: ninguém dá estágio pra quem está no primeiro ou no segundo período. Eu não dou, a não ser que a pessoa tenha projeto específico na área. Então o argumento "a faculdade me coloca no mercado" se morde sozinho.
E olha que eu não estou dizendo pra você virar colecionador de curso. Você pode ficar a vida inteira fazendo curso: se não botar a mão na massa, não adianta. O que torna alguém pleno ou sênior é bater cabeça — subir, quebrar, consertar. Eu já contei aqui como eu perdi o medo de subir em produção, e não foi lendo.
Se o caminho que te interessa é o de infraestrutura, eu já escrevi por que infraestrutura virou o novo superpoder na era da IA. E se você está do outro lado da conta — sem vaga, achando que o mercado fechou —, o meu caso está em o "não" que me fez empreender aos 22.
Deixa eu contar um caso que mostra que isto aqui não é briga de "faculdade ruim". Eu já contratei um professor. Um professor do Nordeste, que despontava na faculdade dele — era bom de verdade, tanto que queria sair porque estava se sentindo amarrado, o ritmo não andava. Ele veio trabalhar fisicamente aqui em Minas com a gente.
Não aguentou um mês. Porrada. Voltou. Nada contra o cara, que era excelente: é que o nosso mercado é outro bicho. Aqui a gente compete com empresa que fatura milhões por mês sendo uma empresa de médio porte — o que a minha equipe faz é mágica. Setor público e setor privado exigem coisas diferentes da mesma pessoa, e quem nunca encostou no privado não tem como saber disso de antemão.
É por isso que eu observo de perto quem entra aqui hoje. Tem uma pessoa na empresa, proativa, que eu venho acompanhando justamente pra entender: quanto tempo ela leva pra pegar sintaxe, o que trava, o que destrava. Não é vigilância, é pesquisa — eu estou desenhando o treinamento das próximas vagas com base no que eu vejo, porque o modelo antigo de ensinar eu já joguei fora, como contei em apagão de dev júnior: eu também parei de contratar.
Se o seu caminho é infraestrutura, eu vou fazer isso presencialmente: três dias em São Paulo passando o fluxo inteiro — como funciona um data center, o que muda pra treinar IA e que GPU se compra pra isso, Docker, Kubernetes, onde hospedar e por que, quando contratar link e quando não, que equipamento de rede faz sentido. "Vinte anos passando raiva em três dias" é como eu descrevo. É a Imersão de Infraestrutura; data, preço, número de vagas e condição são os que estiverem em todas as imersões — é lá que a informação vale, não numa gravação de julho.
Este relato é da gravação de 22 de julho de 2026, e ali eu digo que estou parado de contratação — a última vaga que eu tinha aberto era de meses antes, e eu precisava primeiro redesenhar o meu treinamento interno por causa da IA. Isso mudou depois. Em setembro eu já contei que devo reabrir o escritório de São Paulo e abrir vaga. O critério, esse não mudou uma vírgula: continua sendo o que a pessoa sabe fazer, e eu continuo lendo a grade curricular de quem manda currículo.
Eu vendo imersão — então tenho interesse em que você acredite que dá pra aprender fora da faculdade, e você tem que descontar isso do que eu digo. A minha amostra é a minha: currículos que chegam pras minhas vagas, numa empresa de médio porte, com a régua técnica que eu escolhi. Quem contrata em banco, em multinacional ou em pesquisa vê outra coisa e pode discordar com razão. Eu também não medi nada: "quatro anos de projeto no ar equivalem a pleno" é o meu critério de contratação, não uma média de mercado — eu não acompanhei salário nem recolocação de ninguém pra cravar isso. E tem o risco de quem me lê torto: se você largar a faculdade e não botar projeto no ar, você não fica com o Caminho B, você fica sem os dois. O Caminho B é trabalho, não é folga. Por fim, faculdade boa existe, e eu não tenho mapa delas — se a sua for uma dessas, o meu texto não é sobre você.
TODA SEGUNDA · MEIO-DIA · AO VIVO
Discorda? Concorda? Tem um caso parecido? Aqui não tem caixa de comentário de propósito: segunda-feira, ao meio-dia, eu faço live no canal e a gente conversa sobre isso ao vivo — sem corte, como sempre.
Baseado na gravação do canal @josimarjmv publicada em 22/07/2026 (14min41), com transcrição própria das legendas do próprio vídeo. São da minha vivência e foram ditos na gravação: ser contratante, dono, CEO e CTO de uma empresa de tecnologia, botando a mão na massa; a frase sobre a fábrica de inúteis; os três motivos (educação virada em número, grade desalinhada do que o mercado implementa, faculdade usando IA sem ensinar IA); o teste na cadeira com e sem internet, com e sem IA; a mini faculdade que eu montei dentro da empresa pros júniores e estagiários, e a falha da estadual da minha cidade; o currículo que chega dizendo só Java com Spring Boot e a ausência de estudo de share de mercado; a ressalva de que existem faculdades acelerando e de que o problema é a maioria; receber currículo do país inteiro, o perfil que chega nas vagas de SRE e o estado dos currículos de estágio; o que eu faço com o currículo — perguntar o curso, buscar a grade, ler o roadmap e calcular quanto tempo vou gastar ensinando o resto; a reclamação de que muita faculdade não publica a grade no site e obriga a pedir por contato; as três utilidades do diploma (professor e pesquisa, concurso público, multinacional por formalidade); o desenvolvedor autodidata que ficou cerca de seis anos comigo e fez faculdade só pra poder mudar pra Portugal; a comparação dos quatro anos entre faculdade e projeto em produção; não dar estágio pra quem está no primeiro ou segundo período sem projeto na área; que curso sozinho não basta e que o que forma é bater cabeça; o professor do Nordeste que veio trabalhar em Minas e voltou em menos de um mês; competir com empresas muito maiores sendo de médio porte; estar parado de contratação em julho de 2026 e estar redesenhando o treinamento por causa da IA; e a imersão presencial de infraestrutura de três dias em São Paulo, com o fluxo de data center, GPU pra treinar IA, Docker, Kubernetes, hospedagem e equipamento de rede. São apuração minha, feita em 21/09/2026, e não estavam na gravação: o Censo da Educação Superior 2024 do Inep, divulgado em 22/09/2025, com 10.227.266 matrículas na graduação, 79,8% na rede privada e a primeira maioria de matrículas a distância (50,7%), além da variação de +286,7% no EaD e −22,3% no presencial entre 2014 e 2024, também publicada pelo MEC; e o texto da Portaria Normativa MEC nº 23/2017, art. 99, inciso IV e § 1º (este com redação da Portaria Normativa nº 742/2018), que obriga a instituição a publicar a matriz curricular de todos os períodos e a íntegra do PPC em página eletrônica própria. Duas ressalvas de honestidade: na gravação eu cito o preço, a data e o número de vagas da imersão presencial de infraestrutura — como aquilo era o estado de julho e essa informação é final do Josimar Machado, aqui eu não repito nenhum desses números e mando pra página das imersões, que é onde eles valem; e eu cito pelo nome o colaborador que estou observando pra desenhar o treinamento das próximas vagas — aqui eu deixei sem nome, porque o ponto é o método, não a pessoa.