Josimar JMV
Blog · Carreira, contratação e IA · 16·09·2026

Apagão de dev júnior: eu também parei de contratar

Sumiu vaga de júnior, sumiu vaga de estágio — e eu não vou fingir que a culpa é só dos outros. Eu não estou contratando júnior. O problema é a conta que vem depois.

Resposta rápida: a vaga de dev júnior e de estágio despencou porque parou de fechar a conta de quem contrata — dentro de um pipeline de IA bem montado, eu substituo um júnior inteiro, e até um pleno em transição, sem o custo de meses até a pessoa entregar sozinha. Eu mesmo estou fazendo isso, então sou parte do problema. Só que o júnior de hoje é o sênior de amanhã: se ninguém formar agora, daqui a alguns anos falta sênior e o preço dele vai pro teto. Quem entra hoje não aprende mais por sintaxe — aprende por arquitetura, segurança, documentação e fluxo. E home office não serve pra quem está começando.

Gravei esses 9 minutos em 02/08/2026 no canal @josimarjmv. Meus vídeos não têm edição: um corte no começo, um corte no fim, e o que der errado fica — nesse aí a câmera até embaçou no meio e eu segui falando. Assista e leia junto: aqui embaixo eu conto a mesma coisa por escrito, com mais calma e com o que aconteceu depois da gravação.

🎧 PREFERE OUVIR? · 9 min

Este artigo também é um episódio do podcast Josimar JMV | Em Produção — o mesmo vídeo, só o áudio, normalizado pra fone.

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Cadê o dev júnior, menino?

Sumiu, gente. Sumiu vaga de júnior, sumiu vaga de estágio. Eu estava dando uma olhada nesse negócio de vaga e é uma doideira: despencou. E não é só comigo, não — é geral. Gente júnior tem de sobra no mercado; o que não tem é júnior dentro das empresas.

Vou dar minha carteirada antes de continuar, porque eu acho feio opinar escondendo de onde eu falo: eu sou dono de uma empresa de tecnologia, coordeno time de desenvolvimento e ponho a mão na massa. No quinto dia útil eu tenho que pagar a conta. E eu também não estou contratando dev júnior. Não é teoria de coach, não é palpite de quem lê manchete: é a minha própria decisão de contratação, e ela é parte do problema que eu vim reclamar aqui.

Por que parou de valer a pena contratar júnior

Deixa eu te mostrar como era o meu fluxo, porque assim você entende o tamanho da mudança. Eu sou empresa pequena. Quando um desenvolvedor avisava que ia sair, era Deus nos acuda: anuncia vaga, pede pro cara cumprir o final do contrato, e ainda fica um mês de passagem de conhecimento dos projetos que ele mexia. Aí entrava o novo e, se ele fosse muito bom, levava alguns meses até começar a entregar as coisas sozinho, sem parar todo mundo o tempo todo pra perguntar. Isso é custo. Isso é dinheiro.

Hoje, quando um dev me fala "Josimar, quero sair, saiu uma proposta melhor, quero mexer com outra coisa, não aguento mais vídeo, não aguento mais você" — e eu sei que tem gente rindo aí do outro lado —, brincadeira à parte: não tem mais o desespero. Eu preciso entender como um sistema funciona? Eu mando a IA ler e ela me devolve numa velocidade absurda. Com uma ressalva honesta: desde que o sistema não seja um monolito de uma página só com dez mil linhas — aí ela apanha igual a gente.

E tem o resto, que é a parte que dói escrever. Dentro do pipeline que eu montei e já contei aqui, eu substituo um dev júnior inteiro por IA. E olha que eu vou além: um pleno em transição — aquele de uns três anos de experiência, que ainda dá umas bolas fora — eu substituo também. Sênior não. Desse eu preciso: alguém pra controlar, pra fazer o papel de marionetista e arquitetar o negócio todo. Essa conta é a mesma que eu já expliquei quando falei de largar a sprint porque story point não faz mais sentido com IA: o que a equipe estimava em dias sai em horas, e a régua inteira de senioridade se mexeu de lugar.

Então a frase feia é essa: hoje não vale a pena contratar júnior. Não é que ele seja ruim. É que o único motivo pelo qual a empresa engolia o custo da formação — não ter alternativa — deixou de existir.

Não é só a minha impressão: o dado bate

Eu falo do que eu vejo aqui dentro, mas fui conferir se o meu retrato bate com quem mede isso em escala grande — e bate. O estudo Canaries in the Coal Mine?, do Stanford Digital Economy Lab, de Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, olhou a folha de pagamento de milhões de trabalhadores americanos (dados da ADP) até junho de 2026. O resultado da versão de 12/08/2026: o emprego de jovens de 22 a 25 anos em ocupações expostas à IA está 19% abaixo do que estaria se tivesse acompanhado o dos colegas em ocupações menos expostas.

E tem duas conclusões do estudo que são exatamente o que eu descrevi acima, com outras palavras: não há demissão em massa generalizada na economia, e a queda acontece principalmente por contratação que deixou de ser feita, não por gente sendo mandada embora. É isso: ninguém demitiu o júnior — pararam de abrir a porta pra ele. (Sobre quem já está dentro e está rodando, eu escrevi separado, com os números de demissão de 2026, em 184 mil demissões em tech: o que eu faria pra não rodar.)

O treinamento que eu tinha não serve mais. Joguei fora.

Enquanto eu reclamo, eu estou fazendo. Estou sentado com o Yuri aqui montando o treinamento novo pra estagiário e dev júnior, e a primeira decisão foi dura: jogar fora tudo que a gente fazia antes. Não serve mais pra nada com inteligência artificial em cima.

O treinamento novo vai por outro caminho:

No começo a nossa ideia era outra: primeiro a pessoa estuda sintaxe e como as tecnologias funcionam, depois ela vai pra IA. Vão me xingar, eu sei, mas não faz mais sentido eu pedir pro cara estudar sintaxe pra só depois mexer com IA. Sintaxe é justamente o que a máquina entrega mais rápido e mais barato. Ainda estamos em teste aqui com o nosso estagiário, então eu não vou te vender fórmula fechada — a gente já tem um norte, não tem receita pronta. É a mesma lógica que eu usei quando falei de subir a escadinha da IA: quem manda a IA fazer o trabalho dele vira candidato a ser substituído; quem manda a IA fazer o trabalho que ele entende e confere sobe um degrau.

A conta que ninguém está fazendo: o apagão de sênior

Aqui está o meu dilema, e eu estou coçando a cabeça com ele de verdade. A gente vai precisar de dev daqui a uns dias. Mas hoje o júnior não fecha a conta. E aí, como é que eu treino? Como é que qualquer um treina?

Faz a continha comigo: o júnior de hoje é o sênior de amanhã. Se ninguém está formando júnior agora — e ninguém está, eu incluído —, daqui a alguns anos não vai faltar só júnior: vai faltar sênior. E aí sênior vai ser no tapa. O preço do cara só vai subir, porque a demanda continua de pé e a fila de reposição foi interrompida. Quem é dono de empresa e está achando essa conversa distante: quem fica no pau da goiaba somos nós, sem desenvolvedor, disputando no preço o pouco que sobrar.

Tem um agravante que eu vejo acontecendo em paralelo: com a onda de demissão, muita gente boa está partindo pra empreender — e eu apoio, acho ótimo, é o que eu faço da vida. Só que isso também tira gente da fila de quem estaria virando o sênior contratável de 2030. Eu já tinha escrito sobre o outro lado dessa mesma moeda em acabou pro dev chinelinho: não acabou a profissão — acabou pra quem não entrega. O que eu estou dizendo agora é o passo seguinte dessa história.

A FILA DE FORMAÇÃO — COMO ERA AQUI DENTRO E COMO ESTÁ AGORA ANTES · A EMPRESA PAGAVA A FORMAÇÃO PORQUE NÃO TINHA ALTERNATIVA estágio / júnior → 1 mês de passagem de conhecimento → alguns meses até entregar sozinho → pleno → SÊNIOR custo alto e assumido: tempo da equipe parada pra ensinar, erro em produção, rotatividade de contrato saída de um dev = "Deus nos acuda" HOJE · A FAIXA DE ENTRADA É FEITA POR IA DENTRO DO PIPELINE [ estágio / júnior ] e [ pleno em transição, ~3 anos ] → substituídos no pipeline → SÊNIOR continua indispensável saída de um dev = sem desespero: a IA lê o sistema (menos monolito de 10.000 linhas numa página) A FILA QUEBROU AQUI: SEM JÚNIOR ENTRANDO HOJE, NÃO EXISTE SÊNIOR NOVO DEPOIS Quadro do meu lado do balcão (JMV Technology, empresa de médio porte). O que é vivência minha está escrito como vivência no texto. Contraprova externa: Stanford Digital Economy Lab, "Canaries in the Coal Mine?" (12/08/2026), dados ADP até junho de 2026.
Desenhei esse quadro depois de escrever o texto, porque quando eu vi as duas faixas uma embaixo da outra é que o problema ficou óbvio pra mim: a parte que sumiu é exatamente a que alimentava a de cima.

Home office pra quem está começando? Esquece.

Aqui eu sei que vou levar pedrada, porque todo vídeo meu sobre isso tem comentário de quem mora longe — e eu entendo a sua necessidade, de verdade. Mas eu falo como empreendedor, olhando pro que dá certo: home office não funciona pra estagiário e júnior.

São duas razões. A primeira: a maioria das pessoas que está saindo do estágio, ainda na faculdade, não tem autodisciplina pra trabalhar em casa. Não é ofensa, é estatística de convivência. A segunda: perde-se muito do contato pessoal do dia a dia. Você não fica em chamada de vídeo vinte e quatro horas com a pessoa. É como namorada virtual, cara — não é a mesma coisa. Pessoalmente, mesmo sem toque, é diferente.

Isso não é preconceito com trabalho remoto. Eu tenho gente remota e funciona: home office é combinado de quem já subiu — pleno, sênior, gente com estrada. Pra quem está aprendendo, o valor está em olhar, perguntar e errar do lado de alguém que já fez. É o mesmo motivo que me faz preferir, com dois currículos parecidos na mesa, quem fez curso técnico: laboratório, presença e mão na massa.

E sobre faculdade eu já disse e repito aqui: tem faculdade servindo pra muito pouco — não são todas, tem professor bom nos dois lados —, mas boa parte do que eu recebo é educação do fingimento: o aluno finge que aprende, a escola finge que ensina, e o currículo chega na minha mesa sem projeto nenhum rodando.

O que eu vou fazer — e não é caridade

Eu sempre optei por ser empresa escola, com DNA de formação, por causa da minha região geográfica: aqui não tem mão de obra pronta sobrando, então ou eu formo ou eu não tenho equipe. Então eu vou fazer a minha parte, e vou te contar como, porque talvez sirva de modelo pra você adaptar no seu tamanho.

E o combinado do contrato, que eu faço questão de deixar escrito porque é o ponto onde as pessoas torcem o nariz: eu trabalho com contrato de dois anos. No primeiro ano eu perco, te ensinando. No segundo eu pego de volta aquilo que eu te ensinei — porque o que é mais valioso aqui é o meu tempo e o tempo da minha equipe, muito mais que curso, ainda mais hoje em dia. Terminou o contrato e você quer continuar? A gente senta, você fala os valores que você quer. Se eu der conta de pagar, ótimo. Se não, seja feliz.

Ninguém botou arma na cabeça de ninguém pra trabalhar aqui — e eu falo isso sabendo do caso que virou notícia, do cara que foi processar a empresa anos depois de aceitar um modelo que ele conhecia antes de entrar. Esse é o meu modelo de negócio, está na mesa antes da assinatura, e funciona: quase quatrocentas pessoas já trabalharam comigo e eu tive três, quatro problemas. É irrelevante perto do total. Palavra é um trem que vende berço, como a gente fala aqui em Minas — caráter também.

Nota de cronologia (importante)

Esse relato é da gravação de 02/08/2026, e lá eu falei em abrir vagas de estágio e júnior no final de 2026, possivelmente só em São Paulo. Andou mais rápido do que eu previ. Em 25/08/2026 eu já gravei falando das vagas como coisa concreta: presencial em Divinópolis (MG) e em São Paulo capital, currículo pra [email protected], perfil multidisciplinar — suporte e treinamento de equipe ao cliente com ênfase em desenvolvimento. Está contado em por que eu prefiro contratar quem fez técnico. Confirme a situação atual antes de mandar currículo — vaga abre e fecha, e eu não vou fingir aqui que o quadro de agosto continua igual.

O que eu faria na sua posição, na ordem

Se você é dono de empresa:

Se você está começando agora:

Se você quer encurtar esse caminho por fora da vaga: a parte prática de tirar coisa do papel e botar em produção é o que eu ensino nas minhas imersões — Sites, Chatbot, Infraestrutura e SaaS. Condição, data, preço e formato estão em todas as imersões — é a página que vale, não o que eu falei numa gravação.

TODA SEGUNDA · MEIO-DIA · AO VIVO

Discorda? Concorda? Tem um caso parecido? Aqui não tem caixa de comentário de propósito: segunda-feira, ao meio-dia, eu faço live no canal e a gente conversa sobre isso ao vivo — sem corte, como sempre.

Ver as lives no canal @josimarjmv →

Perguntas frequentes

Por que as vagas de dev júnior e de estágio sumiram?
Porque parou de fechar a conta pra quem contrata. O júnior sempre custou caro antes de produzir: ele entra, consome tempo de gente mais experiente e leva meses até entregar sozinho. Esse custo a empresa pagava porque não tinha alternativa. Hoje tem: dentro de um pipeline bem montado, a inteligência artificial faz a parte que o júnior fazia, na hora. Eu mesmo não estou contratando júnior, e não adianta eu fingir que o motivo é outro.
A IA substitui um desenvolvedor júnior de verdade?
Dentro do pipeline que eu montei aqui, sim — e não para no júnior: pega também um pleno em transição, aquele de uns três anos de experiência que ainda dá umas bolas fora. O que ela não substitui é o sênior. Eu preciso de alguém que controle isso, que faça o papel de marionetista e arquitete o negócio todo. Sem esse cara na ponta, o pipeline produz volume e produz problema.
O que é o apagão de dev júnior?
É a fila de formação quebrando. Empresa nenhuma está pegando júnior e estagiário pra treinar, porque no curto prazo não compensa. Só que o júnior de hoje é o sênior de amanhã. Se ninguém forma agora, daqui a alguns anos falta sênior — e sênior vai ser no tapa, com preço subindo, porque a demanda continua e a oferta parou de ser reposta.
O que um júnior deve estudar agora pra ser contratado?
Arquitetura, segurança, documentação, fluxo e diagrama — e projeto próprio rodando em produção. Eu joguei fora o treinamento que eu aplicava antes, que começava por sintaxe. Vão me xingar, mas não faz mais sentido mandar a pessoa decorar sintaxe pra depois mexer com IA: a sintaxe é o que a máquina entrega mais rápido. O que falta no mercado é quem entende como as coisas funcionam e sabe conferir o que a IA fez.
Home office serve pra estagiário e júnior?
Não, e eu falo isso sabendo que vou ouvir reclamação de quem mora longe. A maioria das pessoas que está saindo do estágio ou na faculdade não tem autodisciplina pra trabalhar em casa, e o contato do dia a dia é insubstituível pra quem está aprendendo. Você não faz chamada de vídeo vinte e quatro horas com a pessoa do seu lado. Home office é combinado de quem já subiu de carreira.
Como você pretende formar essa gente na sua empresa?
Em formato de aulão, com projeto real, presencial e em turma — uma espécie de universidade interna, com uma ou duas sessões por semana, eu mesmo ou alguém que eu destaque pra isso. A ideia é encher o escritório com um grupo de uma vez só, em vez de pegar uma pessoa aqui e outra ali, porque o que custa caro não é a cadeira: é o meu tempo e o tempo da minha equipe.
Como funciona o seu contrato de dois anos?
É transparente desde o primeiro dia: no primeiro ano eu perco, te ensinando; no segundo eu pego de volta aquilo que eu ensinei. No fim do contrato a gente senta e conversa valores — se eu der conta de pagar, ótimo; se não, seja feliz. Ninguém é obrigado a aceitar, e é por isso que funciona. Quase quatrocentas pessoas já passaram por aqui e eu tive três ou quatro problemas.
Sou dono de empresa. Por que isso é problema meu?
Porque a conta cai no seu colo depois. Se ninguém treinar, daqui a alguns dias somos nós, donos de empresa, que ficamos sem desenvolvedor — e pagando caro pelo pouco que sobrar. Não é caridade: é reposição de estoque. Cada um faz do jeito que couber no seu modelo, presencial ou remoto, grande ou pequeno, mas alguém tem que voltar a formar.

É isso, gente. Estamos no apagão de dev júnior. Eu vou fazer a minha parte pra resolver isso e convido você, empreendedor, a começar a pensar sobre isso — porque senão, daqui a uns dias, está todo mundo sem programador. E se você tem ideia melhor que a minha de como formar essa turma, me fala: eu abri um aulão interno porque foi o que eu consegui desenhar, não porque eu acho que é a única saída.

Baseado na gravação do canal @josimarjmv publicada em 02/08/2026 (8min59), com transcrição própria das legendas do próprio vídeo. São da minha vivência tocando a JMV Technology: a decisão de não contratar júnior agora, o pipeline que substitui júnior e pleno em transição, o treinamento novo que eu estou montando com o Yuri, o contrato de dois anos, as quase quatrocentas pessoas que já passaram pela empresa com três ou quatro problemas, e o plano de abrir turma presencial. Checagem externa feita por mim em 16/09/2026: o estudo "Canaries in the Coal Mine? Six Facts about the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence", de Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen (Stanford Digital Economy Lab), versão de 12/08/2026, com dados de folha da ADP até junho de 2026 — de onde vêm os 19% e a constatação de que a queda vem de contratação que não acontece, não de demissão em massa. Condição, data e preço de cada imersão é a que está em todas as imersões.