Foram 100 mil demissões no setor de tecnologia em 2026 — e todo mundo me perguntou se a profissão acabou. Pra mim a pergunta certa é outra: acabou pra quem? Vou ser honesto e pode doer: já passaram quase 400 pessoas pela minha empresa, e eu acho que acabou pro dev chinelinho.
Resposta rápida: as 100 mil demissões não acabaram com a profissão de desenvolvedor — acabaram com o "Dev Chinelinho": o digitador de código que não estuda, quer backlog mastigado e sobrevivia da escassez do mercado. A IA acelera quem sabe e expõe quem não sabe — ela não substitui o dev; quem usa IA substitui quem não usa. O perfil que eu vejo sendo disputado "no tapa": visão de negócio, arquitetura, full stack e infraestrutura (escala horizontal, deploy, on-premise). Separou o joio do trigo — o pedreiro do engenheiro.
Eu gravei quase 21 minutos sobre isso — sem corte, como sempre, e com o dedo na ferida. Dá play e lê junto comigo aqui embaixo, que aqui eu conto a mesma coisa por escrito, com mais calma e com os números na mão:
20 minutos e 39 segundos, sem edição nenhuma — nem quando eu derrubei a água no meio da gravação. No meu canal @josimarjmv.
🎧 PREFERE OUVIR? · 21 min
Este artigo também é um episódio do podcast Josimar JMV | Em Produção — o mesmo vídeo, só o áudio, normalizado pra fone.
Vou dar minha carteirada antes: não é palpite de comentarista de manchete. Sou CEO de uma empresa de tecnologia que trabalha com plataforma de vídeo de alta resiliência — e quem mexe com vídeo sabe que só treinamento de IA é mais pesado que isso. Sou engenheiro de infraestrutura, cuido de anúncio de prefixo com ASN próprio, roteador e bare metal pesado pra sustentar 140 Gb de link, com data center no Brasil e fora. E, pra este assunto aqui, o que mais pesa: já passaram quase 400 pessoas pela minha empresa — eu contratei, eu formei, eu acertei e eu errei. A culpa das contratações ruins é minha mesmo, fui eu que botei pra dentro.
Eu já tinha saído do operacional pra empreender, mochilinha nas costas, vender e crescer a empresa. Foi por causa de dev chinelinho que eu tive que voltar, enfiar a cara na infraestrutura, estudar de novo e coordenar minha própria equipe outra vez. Então quando eu falo desse assunto, eu falo de quem paga a conta no quinto dia útil: sou bootstrap, sem financiamento, meu dinheiro é curto.
Os números que eu tenho na mão:
Não é o júnior. Não é quem se esforça e chega no limite dele. Eu perdi excelentes desenvolvedores ao longo do tempo, e teve um que saiu falando pra mim: "cara, não tem a ver com grana, você até vai me pagar um pouco menos lá — é que eu não aguento mais mexer com vídeo, vídeo exige demais". Esse cara é chinelinho? Não é. Esse cara deu o que tinha, chegou no limite dele e foi honesto comigo. Chinelinho, pra mim, é comportamento:
Não estuda nem quando o estudo é de graça. Eu tinha um dev de performance muito fraca — a gente monitora os equipamentos, e dava pra ver que era Google e Stack Overflow o tempo inteiro. No feedback semestral eu ia desligar ele antes das férias coletivas de dezembro, avisando cedo pra ele se organizar. Ele me pediu uma chance: "eu estudo nas férias e volto fazendo o teste que você quiser". Eu comprei o curso que ele pediu, quase R$ 3.000, e passei o login pra ele. No sábado eu troquei a senha do usuário — e ele não me pediu a senha as férias inteiras. Voltou e me falou na cara que não tinha estudado.
Quer backlog perfeito pra "só digitar". Não sei por que cargas d'água o cara precisa de backlog mastigado pra desenvolver. Hoje eu passo tarefa como regra de negócio — o resto você tem inteligência artificial pra te acelerar. Esse dev que é só digitador de código eu não preciso mais.
Caça vaga no expediente, com o computador da empresa. Um dev me pediu 20 dias de home office porque a filha tinha apanhado na escolinha. Home office, pra mim, sempre foi evolução de cargo — você está aqui dentro, eu treinei, eu conheço, eu confio, aí vai. Eu falei que ele ainda era disperso demais. Resultado: eu vi o cara acessando LinkedIn e mandando WhatsApp atrás de vaga no equipamento monitorado da empresa, em horário de trabalho. Procurar vaga é direito dele; fazer isso na minha máquina, não.
Artifício em vez de entrega. Tinha um dev que era atestado de segunda-feira, batata: primeira, segunda, terceira. A terceira eu ainda tolerei. Na quarta segunda-feira em dois meses eu falei "chega". Some a isso a turma que faz software pra colar em entrevista remota de big tech — tem gente com canal no YouTube que entrou em multinacional enganando na entrevista. Esses caras vão rodar.
Durante muito tempo o mercado aceitou isso, e eu aceitei também, porque não tinha opção: desenvolvedor era raro que nem jogador de futebol. Era estrelinha no teclado que fez cursinho na pandemia e já entrava ganhando quatro pau por mês. Eu olhava aquilo e ficava transtornado. As 100 mil demissões são o fim dessa chantagem — e a pior coisa do mundo é você pagar a conta e ser refém do negócio.
Mas eu faço questão de registrar o outro lado, senão fica injusto. Tive gente excelente aqui: um dos meus devs hoje é engenheiro do Google. E o meu primeiro engenheiro, o cara que pegava o boi pelo chifre — o código era dele, outro dev chegava e fazia cagada, ele barrava: "isso aqui é meu, arruma". Ele virou líder técnico sem querer ser, e se não fosse ele a gente não tinha chegado onde chegou. Tem muita gente que saiu daqui e trabalha comigo como freela até hoje. Isso não é chinelinho de forma alguma.
A inteligência artificial entrou pra acelerar as coisas, só que ela acelera pra quem faz. Ela não vai acelerar pra quem não sabe o que está fazendo, e ela não cria profissão que não existe: se a IA faz a tarefa inteira por você, ela faz por qualquer um — e aquela função deixa de existir. Antes a gente ficava dois dias lendo código pra entender a regra de negócio antes de implementar qualquer coisa; 20% a 30% da sprint ia embora só nisso. Hoje eu mando a IA trazer a regra de negócio de um legado COBOL e reescrever em Rust ou Python. O que ela não faz por você é ter visão: de negócio, de arquitetura, de infraestrutura. É aí que a régua subiu.
Visão de negócio. Recebe a regra de negócio e resolve, sem esperar backlog mastigado. Não é digitador de código.
Arquitetura, não uma ponta só. O que sempre me matou de raiva foi dev de front e dev de back separados: não se conversavam e viviam brigando. Eu sempre privilegiei o full stack — pra mim faz mais sentido.
Infraestrutura de verdade. Escala horizontal, como travar race condition, dimensionamento de banco. DBA ainda faz falta — se não dimensionar direito, na hora que cresce dá pau —, mas hoje todo dev tem que ter essa noção.
Deploy e soberania. Runner, GitLab, ambiente on-premise e não só nuvem. Eu acho isso uma tendência fortíssima, porque token custa caro: em breve as empresas vão descobrir que uma GPU de R$ 100 mil evita ficar pagando R$ 6 ou 7 mil por mês de token. Faz a conta. O dev que manja disso, eu acho que vai crescer absurdamente.
Ah, e treinar dev na minha stack me custa caro: são uns 6 meses. Em quase 400 pessoas, eu conheço dois que chegaram e desembolaram sozinhos em menos de seis meses. Dois. São os gênios que a gente encontra pela vida — não é a régua normal.
Resumindo o que eu penso: isso separou o joio do trigo, o pedreiro do engenheiro. Sim, o dev comum acabou. Sim, o aventureiro acabou. Sim, entrar no mercado está cada vez mais difícil. Agora quem se esforça, quem corre atrás e estuda vai ser disputado no tapa e no grito, a vida inteira, e vai ganhar cada vez mais.
Quer estar do lado certo dessa régua? Esse perfil que eu descrevi é exatamente o que eu formo nas minhas imersões: Infraestrutura On-Premise (IP, BGP, virtualização, deploy soberano — presencial, comigo, que opero data center próprio), Sites com IA em produção e SaaS em produção. Veja as quatro imersões →
TODA SEGUNDA · MEIO-DIA · AO VIVO
Discorda? Concorda? Tem um caso parecido? Aqui não tem caixa de comentário de propósito: segunda-feira, ao meio-dia, eu faço live no canal e a gente conversa sobre isso ao vivo — sem corte, como sempre.
Nota de cronologia: eu gravei isso em 07/05/2026 no meu canal @josimarjmv (20min39s) e passei pro texto aqui em agosto — o que eu penso não mudou, mas o mercado anda rápido, então o vídeo é a data de referência. Todos os casos são da minha própria operação, contados por mim, sem identificar ninguém.