Josimar JMV
Blog · Carreira e produção · 06·09·2026

SaaS virou commodity: o que estudar em 2026 pra não ficar pra trás

Fazer um produto ficou barato. Botar em produção e não cair continua caro — e acabou de passar no Congresso uma coisa que joga dinheiro justamente nessa segunda parte.

Resposta rápida: SaaS virou commodity porque qualquer pessoa faz um hoje com inteligência artificial. O que não virou commodity é botar em produção, ter segurança e não cair — a Cloudflare e a Amazon tiveram incidente esse ano e elas fazem isso a vida inteira. Em cima disso entrou um fato novo no Brasil: o Redata (PL 278/2026), aprovado no Senado em 1º de setembro de 2026 e enviado à sanção, suspende Imposto de Importação, IPI e PIS/Cofins sobre equipamento de data center, com estimativa oficial de R$ 5,2 bilhões de renúncia em 2026. Isso significa construção e operação de data center no país — ou seja, vaga em rede, infraestrutura, arquitetura e manutenção física de servidor. Se eu fosse começar hoje, começaria por aí, não por mais um framework.

13 minutos, sem edição — do canal @josimarjmv. Se preferir o texto, está tudo abaixo, com as fontes da lei conferidas uma a uma.

Você está estudando e quer saber como vai ser o seu futuro na era da inteligência artificial — o que estudar em 2026. Ou você já é desenvolvedor e está pensando em transição de carreira. Eu tenho uma empresa de tecnologia, boto a mão na massa tecnicamente, e o que eu vou falar aqui não é palpite de tendência: é o que está na crista da onda no Brasil agora, por causa de uma aprovação que saiu no Congresso na semana passada.

Commodity é a parte de fazer — não a de operar

SaaS virou commodity. Commodity é isso: qualquer um faz qualquer SaaS hoje com inteligência artificial. A galera está vibe codando loucamente e sai coisa funcionando.

Agora separa as três coisas, porque elas viraram mercados diferentes:

Quem confunde as três é justamente quem monta um protótipo no fim de semana e acha que tem empresa. Já escrevi sobre essa conta em o golpe do microSaaS de 2 dias: prototipar ficou barato, produção não.

O contador que virou departamento de tecnologia sozinho

Eu estava numa reunião de negócio em Belo Horizonte esses dias, conversando com um cara da área contábil — auditoria contábil. Não é técnico. Mas é curioso.

A vida dele era pedir pro dev: preciso desse relatório. E vinha a ladainha — tanto tempo; o BI derruba o banco porque o select é gigante; não dá; não tem jeito; não pode; demora; sempre foi assim. Esse "sempre foi assim", pelo amor de Deus.

Aí ele começou a vibe codar, foi lá no Lovable e resolveu o problema interno dele. Começou a automatizar um monte de relatório que não chegava por déficit técnico da equipe ou falta de tempo. O curioso criou o próprio departamento de tecnologia dentro da empresa — e ganhou muito com isso.

É o velho jogo, só que com ferramenta nova na mesa. O esforçado sempre andou pau a pau com o talentoso preguiçoso. O talentoso e esforçado é fenômeno. E o talentoso preguiçoso fica na vida mediana, deixa a vida me levar — potencial absurdo jogado no lixo, e a gente conhece um monte de caso desses. Como diz o professor Mário Sérgio Cortella: a sorte persegue a coragem. Agora imagina o cara esforçado com todas as ferramentas do mundo na mão. Sai da frente.

O fato novo: o Redata e os R$ 5,2 bilhões

Aqui está a parte que muda o cálculo de carreira, e eu fui conferir cada número antes de escrever.

Existia uma medida provisória sobre isenção fiscal para data center (a MP 1318/25) que caducou sem avançar. O conteúdo dela virou projeto de lei. Esse projeto — o PL 278/2026, que cria o Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter — foi aprovado na Câmara dos Deputados em 25 de fevereiro de 2026 e ficou parado.

Destravou agora: o Senado aprovou o texto em 1º de setembro de 2026, em votação simbólica, com relatoria do senador Cid Gomes (PSB-CE), e mandou para sanção presidencial. Dois dias depois, em 3 de setembro, a Câmara aprovou o PLP 74, que abre o caminho fiscal para o incentivo valer já em 2026 — esse foi para o Senado.

Uma correção honesta ao que eu falei no vídeo: ainda não é lei sancionada. Está aprovado no Congresso e aguardando a sanção. O que já está definido é o desenho:

O que suspende. Imposto de Importação, IPI, PIS/Cofins e PIS/Cofins-Importação sobre equipamento para instalar, ampliar ou modernizar data center.

Por quanto tempo. Cinco anos de suspensão na compra do equipamento, virando isenção depois que a empresa cumpre os compromissos.

Quanto o governo deixa de arrecadar. Estimativa de R$ 5,2 bilhões em 2026, caindo para cerca de R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.

O que a empresa tem que devolver. No mínimo 10% da capacidade de processamento para o mercado brasileiro, energia renovável ou de baixa emissão, eficiência hídrica de até 0,05 litro por kWh no resfriamento, 2% do valor dos produtos investidos no país, relatório anual de sustentabilidade e regularidade fiscal.

R$ 5,2 bilhões é uma bela grana. E para você, que está estudando ou já é desenvolvedor, isso não é notícia de economia — é onde a vaga vai aparecer. Data center não se constrói e não se opera com gente de framework.

Onde exatamente isso vira trabalho

Fiz a minha colinha. É o que eu faço todo dia, então não é lista de tendência de LinkedIn:

As camadas de estudo que o mercado de data center abre DE BAIXO PRA CIMA — E É POR BAIXO QUE ABRE MAIS VAGA 1 · FÍSICO rede e BGP · energia e voltagem · temperatura e ventoinha · montagem e manutenção de servidor construção emprega muito; manutenção emprega pra sempre — equipamento em operação quebra 2 · SISTEMA qual SO entra · formatação · tuning · hardening uptime de 700+ dias não é sorte: é máquina bem posta e bem mantida 3 · ORQUESTRAÇÃO Kubernetes · Docker · por que usar cada coisa a camada que todo mundo estuda primeiro — e que sozinha não sustenta nada 4 · ARQUITETURA grande volume de dados e de tráfego · treinamento e inferência de modelos
A pilha do mercado que o Redata destrava. A maior parte da demanda nova está nas duas camadas de baixo — as que quase ninguém estuda.

Arquiteto e engenheiro de nuvem. "Como você lida com grande volume de dados?" é uma pergunta com resposta de dez dias seguidos. Onde está esse volume? Qual o formato? É estático ou dinâmico? É banco de dados, arquivo de texto, vídeo, PDF? Data center é exatamente isso: uma operação monstruosa com um volume de dados monstruoso. É o caminho para estudar aquilo que eu venho falando há tempos — arquitetura —, só que agora no nível de arquitetura física.

Rede e infraestrutura. Vai abrir muita vaga. Muita. Se você nunca viu como se constrói um data center, vale a curiosidade: a fase de construção é monstruosa. A manutenção depois é menor em volume, mas nunca acaba.

Técnico de campo. Esse é o que ninguém lembra. O cara que monta servidor, que faz manutenção de servidor. Não é montar o seu PC: aqui do meu lado tem um servidor antigo, de uma unidade só, modelo que a gente já descontinuou — e manutenção disso dá uma belíssima grana, porque é manutenção pra sempre. Servidor dá pau. Não toda hora — tem um servidorzinho de teste aqui que eu descobri esses dias com mais de 700 dias de uptime, ligado direto, sem um reboot (roda uptime no seu Linux e vê o seu). Mas é equipamento robusto, ligado e desligado pela rede, com voltagem, monitoramento de temperatura, ventoinha que queima e faz a temperatura e a conta de energia subirem. Não é qualquer um que bota a mão. Quem só mexeu com máquina local precisa de treinamento pra encostar nisso de verdade.

Treinamento e inferência. Todo mundo fala da ponta da inferência, mas antes dela vem o treinamento. Com capacidade instalada no país, muita gente aqui vai poder trabalhar com treinamento de verdade, e a gente começa a ter modelos nossos, focados. Já existem iniciativas em algumas instituições, mas o cenário ainda não é o ideal.

On-premises não é volta ao passado — é conta

Eu falo isso há tempo: on-premises é um mercado sem volta. E não é nostalgia.

O preguiçoso acha que tudo morre na nuvem. Ele não paga a conta, então escala a aplicação no cartão de crédito — normalmente o cartão da empresa. Bota mais instância, liga o auto scale, resolvido. Com inteligência artificial no meio, isso virou bomba: consumo caro, demanda alta, valor alto em tudo.

Aí é natural que, em algum momento, a empresa olhe pra fatura e pergunte: estou gastando 3, 4, 5 milhões por mês de nuvem — não vale a pena eu ter a minha? E quando essa pergunta é feita, quem responde é gente com estas habilidades. Não é coincidência que o mercado de endereçamento também esteja apertado; escrevi sobre isso em a máfia do IPv4.

Se eu fosse começar hoje, começaria por aqui

Eu, Josimar, se fosse começar hoje a estudar alguma coisa, começaria por infraestrutura. Não só hardware — arquitetura: como as coisas funcionam. O que é BGP e como funciona. O que é uma máquina dessas, como se liga, como se formata, qual sistema operacional entra. Depois como você põe o Kubernetes, como faz o tuning, como faz o hardening, se vai usar Docker e por que vai usar cada coisa.

E arquitetura para trabalhar com grande volume de dados e de tráfego. Um detalhe que denuncia quem não é do ramo: tem gente vendendo e alugando servidor "de data center" com placa de 1 Gb. Não faz o menor sentido. 1 Gb você tem na sua casa; não serve nem pra sincronização de dados entre servidores, é muito pouco. Quando você vai pra 10 Gb, o disco tem que acompanhar, e aí entra a decisão de onde gravar e o que fica em memória — mas isso é assunto pra outro texto.

Se você não gosta de hardware, foca em arquitetura de sistema. E se gosta das duas coisas — infraestrutura com arquitetura —, como disse um comentário recente lá no canal: esse cara vai jantar todo mundo. Não tem como. Quem entende arquitetura e infraestrutura com uma IA da geração do Fable 5.1 na mão faz coisa demais. Faz magia.

Sobre a imersão de infraestrutura. No vídeo eu falo dela no fim: três dias presenciais em São Paulo — sexta, sábado e domingo — pra passar o que eu aprendi em vinte anos de infraestrutura tendo nuvem própria: BGP, contratação de equipe, os problemas que eu já tive e o que deixa a operação redonda. Não tem carrinho de compra: você faz a pré-inscrição, e antes de abrir venda eu converso com cada pessoa pra entender o negócio dela e ver se faz sentido. O investimento que eu cito no vídeo fica entre R$ 15 mil e R$ 20 mil; data e condição finais saem na página. Detalhes e pré-inscrição em Imersão de Infraestrutura — e as outras três estão em todas as imersões.

Perguntas frequentes

O Redata já é lei?
Ainda não. O PL 278/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), passou na Câmara em 25/02/2026 e no Senado em 1º/09/2026, em votação simbólica e sem mudança de mérito, e seguiu para sanção presidencial. Em 03/09 a Câmara aprovou o PLP 74, que abre o caminho fiscal pro benefício valer já em 2026 — esse foi pro Senado.
Quais tributos o Redata suspende?
Imposto de Importação, IPI, PIS/Cofins e PIS/Cofins-Importação sobre equipamento destinado a instalar, ampliar ou modernizar data center. São cinco anos de suspensão na compra, convertidos em isenção depois de cumpridos os compromissos. A renúncia estimada é de R$ 5,2 bilhões em 2026 e cerca de R$ 1 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.
Quais são as contrapartidas exigidas das empresas?
Destinar no mínimo 10% da capacidade de processamento ao mercado brasileiro, usar energia renovável ou de baixa emissão, atender índice de eficiência hídrica de até 0,05 litro por kWh no resfriamento, investir 2% do valor dos produtos importados ou adquiridos no país, publicar relatórios anuais de sustentabilidade e manter regularidade fiscal federal.
Se SaaS virou commodity, não vale mais fazer SaaS?
Vale — o que virou commodity foi fazer, não operar. Com IA qualquer pessoa monta um produto funcionando. Botar em produção com segurança, aguentar carga, não cair e vender continuam difíceis. São três competências: construir, operar e vender. A primeira ficou barata; as outras duas definem quem fica de pé.
Preciso gostar de hardware pra entrar nesse mercado?
Não. Quem gosta de hardware tem construção, montagem e manutenção de servidor — trabalho de campo que não acaba, porque equipamento em operação quebra. Quem não gosta tem arquitetura de sistema e de dados: onde os dados estão, em que formato, se são estáticos ou dinâmicos, como aguentar o volume. Mesmo mercado, portas diferentes.
Por que placa de rede de 1 Gb não serve em data center?
Porque 1 Gb é banda de casa. Pra sincronização de dados entre servidores é pouco demais. Em data center se trabalha a partir de 10 Gb, e aí o disco tem que acompanhar a rede, além da decisão de onde gravar e do que fica em memória. Aparece muito servidor vendido com placa de 1 Gb como se fosse infraestrutura de data center; não é.
Por que empresa que está na nuvem passaria a ter nuvem própria?
Por conta. Com IA no meio, o custo de nuvem subiu muito, e quem escala aplicação no cartão de crédito — normalmente sem pagar a fatura — leva a conta a milhões por mês. Em algum ponto o financeiro pergunta se não vale ter a própria nuvem. É aí que arquitetura, rede e infraestrutura física viram decisão de negócio.
Por onde começar a estudar, em ordem?
Primeiro arquitetura e infraestrutura de verdade: o que é BGP e como funciona, o que é uma máquina de servidor, como liga, como formata, qual SO entra. Depois orquestração e ajuste fino: Kubernetes, tuning, hardening, Docker se for o caso — sempre sabendo por que se usa cada coisa. Ao redor de tudo, arquitetura pra grande volume de dados e de tráfego.

Baseado no vídeo do canal @josimarjmv publicado em 05/09/2026, com transcrição própria das legendas do vídeo. Os dados do Redata foram conferidos nas fontes primárias: Agência Senado (1º/09/2026) e Agência Câmara (25/02/2026). Números de tributação e contrapartidas são do texto aprovado, sujeitos ao que sair na sanção. Este texto é relato de experiência e leitura de mercado, não orientação tributária nem jurídica.