Entrei na fila em 2019 e esperei quase um ano. Antes disso, paguei entre R$ 8 e R$ 12 mil por um /24 alugado — e só depois descobri que aquilo era proibido. Este é o mercado que ninguém te explica antes de você assinar o data center.
Resposta rápida: IPv4 acabou. Como não existe estoque, formou-se um mercado paralelo: gente alugando e vendendo bloco por fora — o que é contra as regras do registro.br e da LACNIC — a preços que vão de R$ 8 mil (o que eu paguei por um /24) até R$ 30 mil, ou de R$ 50 a R$ 200 por IP avulso. O caminho legítimo é a fila do registro.br, que hoje tem requisição de 2021 ainda esperando, ou contratar um serviço que já venha com o bloco — isso é permitido. IPv6 sai rápido e é praticamente infinito; o problema é que ainda há provedor que não implementou IPv6, então quem depende de IPv4 continua refém.
Você pode ligar agora na sua operadora e pedir um IP fixo. Tem operadora com coragem de cobrar R$ 300 por mês por isso. Por quê? Porque IP fixo é IPv4 — e IPv4 acabou no mundo. Não existe mais estoque pra distribuir.
Quem escreve isso não é palpite de fora: sou CEO de uma empresa de tecnologia que tem bloco de IP próprio, ASN, data center no Brasil e nos Estados Unidos, com redundância. Não é papagaio digital repetindo o que leu. E a razão de eu conhecer esse mercado é péssima: eu participei dele, sem saber o que estava fazendo, quando montei a minha própria nuvem.
Este artigo é a versão escrita do vídeo publicado no canal em 1º de setembro de 2026 — sem edição, como sempre:
15 minutos, sem edição — do canal @josimarjmv. Se preferir o texto, ele está todo aqui embaixo.
Pra ter um IPv4 hoje você entra numa fila da qual talvez nunca saia. Os comitês gestores — a LACNIC na América Latina, e abaixo dela o registro.br no Brasil — fazem o que se chama de processo de recuperação: empresas que têm bloco e estão usando de forma errada, ou sequer estão usando, têm o bloco tomado de volta. Aquele bloco recuperado vai pra primeira pessoa da fila.
Ou seja: o estoque de IPv4 do mundo hoje é basicamente o que se consegue tomar de volta de quem usou mal. Não há emissão nova. É por isso que o preço no mercado paralelo não tem teto — quando não tem oferta, cada um coloca o preço que quiser.
Entrei na fila em 2019. Esperei quase um ano pelo meu bloco IPv4. E quando ele saiu, veio de onde deu: o meu bloco era da África.
A primeira coisa que fiz ao receber não foi comemorar — foi investigar. Pesquisa de spam, blacklist de e-mail, blacklist de navegação, histórico de anúncio daquele prefixo. O pessoal não gostava daquele prefixo porque ele tinha sido usado em ataque. Foi preciso fazer uma limpeza de listas, saber em quantas blacklists ele estava e checar tudo antes de colocar aquele IP pra rodar em produção.
Isso é o que ninguém conta na hora de vender a ideia de "ter IP próprio": o endereço é reciclado, e a reputação vem junto. Se o seu negócio depende de entregar e-mail, isso não é detalhe — é o produto. Foi a mesma preocupação que apareceu quando eu migrei mais de 3 TB de e-mail: IP sujo derruba entrega, e não adianta a stack ser bonita.
Antes do bloco sair, eu já tinha contratado data center, feito contrato, montado meus racks. E eu precisava de IPv4 agora — o bloco IPv6 sai automaticamente, esse nunca foi o problema.
Aí veio a primeira máfia, e ela é humana: o técnico. Tem de todo tipo. Tem o cara certo, que faz o trabalho direito. E tem muito cara que esconde informação — e isso te deixa perdido, porque você não sabe o que não sabe. Eu fiquei perdido. Contratei uma empresa e confiei cegamente nela.
O data center me cedeu 10 ou 12 IPs pra começar a operação, configurei o roteador, fiz os anúncios de prefixo. Só que era pouco IP, e eles não tinham mais IPv4 pra ceder nem pra alugar. Eu atendo governo, e-mail e CDN — eu precisava de endereço de verdade.
Foi aí que eu "comprei" um bloco. Na verdade, aluguei: alguém tem um bloco parado, não está usando, e aluga pra outra empresa. Basta pesquisar na internet — é contra as regras, mas a galera vende. Eu não sabia que era proibido. Pra mim era normal. Fui descobrir depois, quando fiz os cursos — já tinha saído dessa.
Na época, me cobraram entre R$ 8 mil e R$ 12 mil por um /24 — 256 IPs pra trabalhar. Pesquisei muito antes de fechar, e mesmo assim, depois, descobri que estava sendo extorquido: havia quem vendesse mais barato naquela época. Hoje está pior: tem gente pedindo R$ 30 mil pelo bloco, tem gente cobrando R$ 50 por IP e tem gente cobrando R$ 200 por IP.
E aqui está o risco que quase ninguém calcula antes de assinar: isso é contra as regras. Quando a LACNIC ou o registro.br descobre — por fiscalização ou por denúncia — abre-se o processo de recuperação, e quem cedeu pode perder o bloco. Ele deixa de ser dela e vai pra próxima empresa da fila. Quem está alugando desse bloco fica sem endereço, da noite pro dia, com a operação no ar.
Se você vai entrar nesse mercado, entenda a diferença — ela é a linha entre estar certo e estar exposto:
Proibido: pegar o bloco solto de alguém, por aluguel ou venda, pra anunciar como se fosse seu. É o que eu fiz sem saber, e é o que sustenta a máfia.
Permitido: contratar de uma empresa um serviço que já vem com o IP dela. Vender um sistema de e-mail pra uma corporação ou pra um órgão de governo que quer IP dedicado — pra transacionar sem cair em spam e sem herdar blacklist de vizinho de IP compartilhado — não tem nada de irregular.
A distinção parece burocracia, mas é o que separa um contrato que dura de um contrato que evapora numa fiscalização. Provedor pequeno que precisa de bloco: hoje o caminho realista é contratar uma empresa que te ofereça serviço — não o bloco pelado.
Durante a gravação eu pedi pro Yuri consultar a fila da LACNIC ali na hora, e o que apareceu é o retrato do problema: fila gigante, com requisições que vão de 2021 até 2026. A requisição mais recente era de 17/08/2026 — seis dias antes daquela consulta.
Faça a conta: tem gente esperando desde 2021. São cinco anos. Eu pedi em 2019 e levei quase um ano; dois anos depois, já não estava mais saindo. Pra quem quer ter o próprio ASN com IPv4 hoje — provedor pequeno, por exemplo —, a leitura honesta é: esquece a fila como plano. Ela pode ser o seu plano de longo prazo, mas não é o que vai te colocar no ar.
E tem outra barreira, essa legítima. Qualquer um pode se cadastrar no registro.br e pedir, mas a burocracia é técnica: contrato com data center, topologia de rede desenhada e entregue, anúncios configurados — e tudo passa pela análise dos técnicos do registro.br. Precisa de gente que conheça redes de verdade.
O último processo de validação de bloco da nossa empresa quem fez fui eu, sozinho. Redesenhei a topologia que estava feita antes, fiz os anúncios, corrigi bogons que estavam errados — se você não sabe o que é bogon, pesquise; quem é do ramo já sabe. Foi preciso arrumar um monte de coisa pro registro.br validar. Inclusive: quem escalou a nossa rede do Brasil pros Estados Unidos, com topologia, fui eu — e no caminho descobri que o pessoal de lá estava errando os anúncios de prefixo deles.
Era um gap de conhecimento que eu tinha, e eu fui atrás dele exatamente por causa das dores da máfia em que eu entrei. Botar a mão na massa foi o que transformou prejuízo em método.
Sem endereço pra todo mundo, os provedores fazem CGNAT: um IP público servindo dezenas de assinantes. Vamos supor um provedor com um /22 — 1.024 IPs — atendendo 5 mil assinantes: ele não tem alternativa, divide cada IP entre vários usuários. (O número é exemplo meu no vídeo, pra ilustrar a conta; não é dado de um provedor específico.)
O preço disso não é técnico, é jurídico. Quando chega uma requisição judicial pedindo quem estava usando aquele IP em determinado instante, o provedor precisa ter terabytes de log guardados para responder quem era o assinante por trás daquele endereço naquele momento. É por isso que a galera de provedor sofre tanto com a justiça — e sofre mais em período pré-eleitoral, que é justamente quando este vídeo foi gravado, em agosto de 2026.
Do lado do estoque, IPv6 é tranquilo: sai agora, é praticamente infinito, sem fila e sem máfia. Se o seu negócio roda em IPv6, você não tem esse problema.
Só que existe o outro lado da conexão. Uma das grandes preocupações do comitê gestor da internet no Brasil é esta: tem muito provedor que até hoje não implementou IPv6, mesmo já tendo bloco disponível. Se você subir só IPv6, o cliente que está atrás de um desses provedores simplesmente não te alcança. Ele não roda se o provedor dele não estiver configurado.
Por isso a pergunta certa, antes de assinar qualquer data center, é uma só: "o meu negócio precisa mesmo de IPv4, ou a gente consegue rodar só IPv6?" Faça essa pergunta pro seu desenvolvedor antes de comprar qualquer coisa. A resposta muda o custo e o prazo do projeto inteiro.
O roteiro mínimo de quem vai montar ambiente próprio, na ordem em que as perguntas doem:
Ambiente próprio voltou a bombar, e o motivo é conhecido: o custo elevado de inteligência artificial na nuvem. Só que a demanda cresceu e o IPv4 não cresceu junto. Conclusão previsível: o preço de quem ainda fornece esse tipo de coisa vai disparar.
E tem o outro lado da planilha, que é onde eu vejo mais dinheiro sendo rasgado: o superdimensionamento. Que tipo de aplicação você vai rodar? Você precisa saber isso antes de comprar. Não adianta chegar dizendo "vou comprar o melhor". Pra quê? Por que o amigo de TI quer jogar o dinheiro do patrão fora, gastar R$ 200 mil num servidor se um de R$ 40 ou R$ 50 mil resolve o problema?
Esse tipo de maldade quem te conta é quem paga a conta e entende tecnicamente — as duas coisas juntas. Não adianta ouvir só o técnico, só o consultor, só o cara de marketing ou só o vendedor. É a mesma lógica de tudo o que se esconde atrás da promessa de subir um SaaS em dois dias: a parte cara nunca é a que aparece na demonstração.
Onde eu destrincho isso de ponta a ponta: vou fazer uma Imersão de Infraestrutura presencial em São Paulo, 3 dias, de infraestrutura pesada até o ponto de deploy — a metodologia inteira pra você ter a sua própria nuvem. Data em definição e investimento na casa de R$ 18 mil, conforme a página da imersão; a lista de espera recebe data, valor fechado e condições primeiro. A pré-inscrição também serve de filtro: não é pra qualquer empresa nem pra qualquer pessoa — tem que fazer sentido, porque o investimento é substancial e o que eu vou te economizar em erro de infraestrutura é muito maior. Se o seu caminho for outro, tem SaaS em produção, chatbot e criar e vender sites. Veja as quatro imersões →
Baseado no vídeo "A MÁFIA do IPv4: Como Cobram até R$ 30 Mil por um Bloco", do canal @josimarjmv, publicado em 01/09/2026 (15min17s), com transcrição própria das legendas do vídeo. Valores e prazos são os relatados na gravação — mercado paralelo não tem tabela pública. Formato e investimento da Imersão de Infraestrutura conforme a página da imersão; data ainda em definição. Toda segunda-feira tem live ao meio-dia no canal.