Em julho de 2026 eu gravei pedindo ajuda: R$ 5,2 bilhões de incentivo pra data center estavam parados no Senado. Eu tenho data center, compro equipamento e assino a nota — então essa conta é minha. A lei saiu em 15 de setembro, e eu fui ler o texto inteiro pra te contar o que mudou de verdade.
Resposta rápida: os R$ 5,2 bilhões nunca foram dinheiro pra repassar — são renúncia fiscal, imposto que deixa de ser cobrado na compra de equipamento de data center. Quando eu gravei, em 23 de julho de 2026, o incentivo estava travado: a medida provisória do tema caducou no Senado sem ser pautada e o projeto irmão, aprovado pela Câmara em fevereiro, dormia na gaveta. Destravou: o Senado aprovou o PL 278/2026 em 1º de setembro de 2026 e o presidente sancionou em 15 de setembro — é a Lei 15.504/2026, que cria o Redata e suspende Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI na compra de equipamento. Enquanto isso, o dinheiro privado não esperou ninguém: a ByteDance, dona do TikTok, anunciou R$ 200 bilhões num data center no Ceará. Quarenta vezes o que o governo ia deixar de arrecadar.
Gravei esses 9 minutos no canal @josimarjmv em 23 de julho de 2026, no calor da coisa, pedindo pra galera divulgar. Assista e leia junto: aqui embaixo eu conto a mesma coisa com mais calma — e com o desfecho, que eu fui conferir em 20/09/2026, dois meses depois da gravação.
🎧 PREFERE OUVIR? · 9 min
Este artigo também é um episódio do podcast Josimar JMV | Em Produção — o mesmo vídeo, só o áudio, normalizado pra fone.
Meu meio é infraestrutura. Eu tenho data center — no Brasil e nos Estados Unidos —, eu compro equipamento, eu assino a nota fiscal e eu pago a conta de energia no fim do mês. Então quando eu falo de incentivo pra data center, não é palpite de quem leu manchete: é a planilha que chega pra mim.
E a minha empresa é de médio porte. É negócio suado, sem dinheiro pra jogar fora. É exatamente por isso que eu me importo com esse tipo de incentivo: quem tem caixa infinito atravessa sem ele; quem está no meio do caminho, não. Sem incentivo, o negócio não anda — e a gente fica comendo poeira.
Olha o tamanho da desproporção que me fez gravar. De um lado, a ByteDance, dona do TikTok, anunciou R$ 200 bilhões num data center no Ceará. Do outro, o governo federal ia deixar de arrecadar R$ 5,2 bilhões pra incentivar a construção de data center no país inteiro. Eu falei na gravação e repito por escrito: é menos do que o fundão eleitoral, menos do que a gente gasta pra sustentar campanha.
E o TikTok não é bobo nem nada. Foi pro Ceará porque lá chegam os cabos submarinos, porque tem um polo gigante de energia eólica e porque operar no Nordeste sai mais barato do que em São Paulo. Tem outra leitura que eu faço, e essa é minha: empresa chinesa não vai construir uma coisa dessas dentro dos Estados Unidos. O Brasil é onde dá pra construir. Só lembrando que a China já comprou porto, estrada, distribuidora — ela vai comprando tudo.
Deixa eu te mostrar a conta que eu faço na prática, porque é aqui que a soberania vira planilha. Eu quero uma GPU de topo — uma H100, uma H200 — pra botar num data center. No Brasil, eu pago o preço da placa mais a entrada dela no país. Na gravação eu chutei a ordem de grandeza: uns R$ 150 mil na placa e sei lá mais uns R$ 100 mil de tributo pra trazer. É estimativa minha, dita ali de cabeça — não é tabela.
Agora junta com o resto: em uns três anos essa placa já está velha. Você acha que eu vou pagar a entrada dela aqui pra ela queimar em três anos? É óbvio que eu compro essa GPU e deixo nos Estados Unidos. Ou nem compro: alugo a capacidade lá, e pronto.
Isso não é falta de patriotismo, é matemática. E é exatamente esse o ponto que um regime de suspensão de tributo na compra ataca. Eu já expliquei em outro texto por que eu migrei da nuvem pro on-premise e isso salvou a minha operação: quando você opera o próprio metal, o preço do equipamento é a variável que decide tudo. Se a máquina fica 30% mais cara na fronteira, a decisão muda de país.
Eis o que eu estava esbravejando em julho. O incentivo vinha por dois caminhos ao mesmo tempo — uma medida provisória e um projeto de lei que a Câmara já tinha aprovado. A medida provisória caducou no Senado sem ser colocada em pauta, e aí o próprio Ministério da Fazenda apontou o nó: passado o prazo da MP, dar a isenção virou problema de regra fiscal. A Câmara aprovou, chegou no Senado e parou.
Eu chamei aquilo de nosso rico dinheirinho sendo queimado, e chamo ainda. Não é questão partidária pra mim — não é o meu métier ficar discutindo articulação de plenário. O meu métier é que eu preciso comprar máquina e o país precisa de capacidade instalada. Eu pedi na gravação pra todo mundo divulgar, pra quem conhecesse político mandar pra ele. Falei até do senador que é aqui da minha cidade — eu ia mandar pra ele também.
A gravação é de 23 de julho de 2026 e este texto é de 20 de setembro de 2026. Nesse meio-tempo, aconteceu. O Senado aprovou o PL 278/2026 em 1º de setembro de 2026, em regime de urgência, sem passar por comissões, com relatoria do senador Cid Gomes (PSB-CE) — que mexeu só na redação pra não ter que devolver o texto pra Câmara. Em 15 de setembro veio a sanção: é a Lei 15.504/2026, publicada em edição extra do Diário Oficial no mesmo dia. Entre o meu vídeo e a assinatura foram cerca de oito semanas. Eu não vou aqui me dar crédito nenhum por isso — a pressão do setor inteiro é que fez, e eu fui uma voz no meio. Mas eu prometi contar o fim da história, e o fim é esse.
O Redata, na prática, suspende o pagamento de Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI na compra de equipamento que vai pro ativo imobilizado do data center, e essa suspensão vira alíquota zero quando a empresa cumpre os compromissos assumidos. Eu já destrinchei artigo por artigo o que ele isenta, o que exige em troca e por que o Simples Nacional ficou de fora — se você quer a leitura miúda do regime, é lá.
Aqui eu quero o recorte que interessa pra decisão de compra. Dois detalhes do texto sancionado que eu li e que quase ninguém comentou:
Some a isso os compromissos de quem se habilita: 10% da capacidade disponibilizada ao mercado interno, energia toda de fonte renovável ou de baixa emissão, eficiência hídrica de no máximo 0,05 litro por kWh, com medição anual, e 2% do valor comprado investido em pesquisa e inovação — com esses compromissos 20% menores no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. É régua de projeto grande. Pequeno no Simples está vedado por escrito. A mesma Lei 11.196/2005 que o Redata altera já era a casa do Repes, e eu já tinha ido ler ela inteira quando fui atrás de como vender SaaS pro exterior sem pagar imposto duas vezes — é sempre a mesma história: a lei existe, e ela não é escrita pro pequeno.
Agora a parte que me fez gravar, que é maior que imposto. Todo mundo que faz software aluga instância lá fora porque sai mais barato, e com isso o dado do brasileiro vai dormir nos Estados Unidos. Eu citei na gravação uma nota de soberania do Brasil, e fui honesto ali: eu li uma matéria, não sei direito o que é esse instituto.
(Checagem minha, feita em 20/09/2026, pra não deixar número solto no ar: o número vem do índice do Instituto Brasileiro de Soberania Digital (IBSD), entidade privada sediada em Curitiba — na dimensão de soberania de dados, o Brasil aparece com 45,8 de 100, contra 94,2 dos Estados Unidos e 88,5 da China. O relatório completo não é aberto: o instituto vende o diagnóstico. Então eu trato isso como termômetro, não como censo — e você deve tratar igual.)
Mas o termômetro bate com o que eu vejo operando rede todo dia, e aí está a frase que dá nome a este texto: se desligarem os cabos submarinos, o Brasil para. Não é hipérbole de palestra. Videoconferência de audiência com presídio hoje roda em ferramenta estrangeira. Sistema de empresa, de escola, de hospital, tudo apontando pra uma instância que está do outro lado do oceano. Você não controla a tomada, não controla o cabo e não controla a política de quem opera — e quando algo dá errado, você descobre que a sua "nuvem" tem endereço, dono e país.
É a mesma coisa que eu digo quando explico por que eu não uso GitHub, Supabase ou Firebase em produção e quando conto a novela de entrar na fila pra ter bloco de IP próprio: depender da infraestrutura do outro é barato até o dia em que não é.
Eu volto pra planilha, que é onde eu vivo. Com o regime valendo, a conta de trazer máquina pra cá muda, e isso reabre uma discussão que estava morta aqui dentro. Não é euforia: eu ainda preciso ver a lista de produtos que o Executivo vai publicar e o regulamento da habilitação pra saber o tamanho real do desconto. Mas a porta que estava trancada agora tem chave.
E tem a parte que interessa a quem está começando. Se o país ganhar capacidade instalada nos próximos anos, alguém vai ter que operar isso. Não é quem só sabe apertar botão em painel de nuvem alheia — é quem entende energia, refrigeração, rede, segurança e custo. Eu escrevi um texto inteiro sobre isso: infraestrutura virou o superpoder da era da IA, e eu continuo achando que essa é a aposta de carreira mais subestimada do mercado brasileiro.
A gente tem tutano aqui: tem gente inteligente pra caramba no Brasil, capaz de fazer coisa muito bacana. O que faltava era o governo não atrapalhar. Dessa vez não atrapalhou.
Se você quer aprender a operar isso de verdade: é disso que eu trato na Imersão de Infraestrutura, presencial em São Paulo — do metal pra cima: quando compensa comprar servidor e quando compensa alugar, onde modelo local vale a pena, energia, segurança, LGPD e escala. Data, preço e condição são os que estiverem em todas as imersões — é lá que a informação vale.
Eu falo do lugar de quem compra máquina, e esse lugar tem ângulo morto. Renúncia fiscal é dinheiro que deixa de entrar no caixa público, e tem gente séria que acha que R$ 5,2 bilhões abatidos em 2026 sairiam melhor investidos em outra coisa — é uma discussão legítima, e eu não sou neutro nela. Os valores que eu citei da GPU são estimativa minha, ditos de cabeça na gravação, não cotação. A nota de soberania é de instituto privado que vende o próprio índice, então vale como sinal, não como prova. E o principal: incentivo destrava compra, não cria soberania. Data center cheio de máquina rodando serviço de fora, hospedando dado de fora, não me faz soberano de nada — me faz galpão. O que eu sustento é a conta: com imposto na fronteira, o equipamento não vem; sem, ele pode vir. O resto é leitura minha — e leitura se discute.
TODA SEGUNDA · MEIO-DIA · AO VIVO
Discorda? Concorda? Tem um caso parecido? Aqui não tem caixa de comentário de propósito: segunda-feira, ao meio-dia, eu faço live no canal e a gente conversa sobre isso ao vivo — sem corte, como sempre.
Baseado na gravação do canal @josimarjmv publicada em 23/07/2026 (9min28), com transcrição própria das legendas do próprio vídeo. São da minha vivência e foram ditos na gravação: ter data center e operar infraestrutura no Brasil e nos Estados Unidos; ser empresa de médio porte, sem dinheiro pra jogar fora; a conta de comprar uma GPU de topo aqui contra deixar ou alugar lá fora, com a estimativa de cerca de R$ 150 mil na placa e mais uns R$ 100 mil de tributo pra trazer, dita de cabeça; a depreciação de uns três anos do equipamento; a comparação dos R$ 5,2 bilhões com o fundão eleitoral; a leitura de por que a ByteDance escolheu o Ceará (cabos submarinos, polo eólico, custo) e de que empresa chinesa não construiria isso nos Estados Unidos; a observação de que a China vem comprando porto, estrada e infraestrutura no Brasil; a frase de que, desligados os cabos submarinos, o Brasil para, com o exemplo de videoconferência com presídio em ferramenta estrangeira; a ressalva, feita por mim na própria gravação, de que eu não sabia direito o que era o instituto da nota de soberania; e o pedido pra galera divulgar, inclusive pro senador da minha cidade. São apuração minha, feita em 20/09/2026, e não estavam na gravação: a aprovação do PL 278/2026 pelo Senado em 01/09/2026, em regime de urgência e com relatoria de Cid Gomes (PSB-CE); a confirmação do trâmite e do impacto fiscal estimado; a tramitação registrada na ficha do projeto na Câmara e na matéria do Senado; e o texto integral da Lei 15.504, de 15 de setembro de 2026, de onde saíram os compromissos de habilitação, a vedação ao Simples Nacional, a redução de 20% nos compromissos para Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a exigência de lista do Poder Executivo para a suspensão do Imposto de Importação e o prazo de 31 de dezembro de 2026 para os efeitos de PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI. Data, preço e condição de cada imersão são as que estão em todas as imersões.