Como o YouTube entrega 5 milhões de pessoas ao vivo ao mesmo tempo: eu desenho a rede
Nem o Google tem link pra mandar a mesma live direto pra milhões de casas. Eu tenho CDN de vídeo, AS próprio e um rack no mesmo prédio do Google em São Paulo. Vou fazer a conta do link com você e mostrar o truque que fecha essa conta — e que quase ninguém explica.
🎧 PREFERE OUVIR? · 23 min · Podcast Em Produção
Este artigo também é um episódio do podcast Josimar JMV | Em Produção — o mesmo vídeo, só o áudio, normalizado pra fone.
Gravei esses 23 minutos no canal @josimarjmv em 24 de maio de 2026, na semana da convocação da Seleção, desenhando no quadro e sem seguir roteiro — saiu da minha cabeça. Assista e leia junto: aqui embaixo eu conto a mesma coisa por escrito, com a conta na mão e com o que eu fui conferir depois.
o YouTube não manda a live do data center dele pra cada casa. Não tem link no mundo pra isso: a só 1 Mbps por pessoa, 5 milhões de espectadores pedem 5 terabits por segundo saindo de um lugar só. O que fecha a conta é engenharia de rede em duas peças. A primeira é o ponto de troca de tráfego (PTT, ou IX): o Google e centenas de provedores ligam uma fibra no mesmo lugar e trocam tráfego direto, sem pagar trânsito. A segunda é o servidor de cache dentro do provedor (o Google Global Cache): a live chega uma vez na caixa que está dentro do seu provedor e sai milhares de vezes pela rede local dele, que já tem fibra até a sua casa. Um link fininho de entrada vira centenas de gigabits de entrega. Quando isso falta — provedor pequeno, sem cache e sem PTT —, é aí que a live bufferiza.
A carteirada antes, e o jogo que me fez gravar
Vou dar a minha carteirada antes: eu sou engenheiro de infraestrutura, trabalho com isso há anos e tenho um CDN de vídeo. Não é palpite de fora: eu tenho sistema autônomo próprio, bloco IPv4 e IPv6 próprios, e um rack trocando tráfego no ponto de troca de tráfego de São Paulo.
Gravei na semana da convocação da Seleção pra Copa. Sou brasileiro, velho, não adianta: vou torcer, vou rezar, estamos juntos. E a convocação não foi transmitida por um canal só. Tinha a CazéTV, tinha a ge TV, tinha um monte de canal de mídia do mundo inteiro transmitindo a mesma coisa. E o YouTube não parou pra fazer uma live: tem um monte de live rodando ao mesmo tempo, sempre. Some todas e o número é muito maior que o recorde de uma só.
Nota de cronologia (importante). No ar eu falei de cabeça que o recorde do YouTube era da CazéTV, na casa dos 5,6 milhões de pessoas simultâneas. Isso foi antes da Copa. Na Copa, em junho, o número explodiu: a Máquina do Esporte registrou pico de 12,7 milhões na estreia do Brasil contra o Marrocos, e o TecMundo registrou 18,6 milhões contra a Escócia, terceiro recorde seguido em jogo da Seleção. As duas fontes não batem sobre qual era o recorde de antes da Copa (uma fala em 6,1, outra em 6,9 milhões), então eu não cravo esse. O que importa pra este texto não muda: a escala ficou três vezes maior, e a engenharia que eu explico aqui é a mesma que segurou isso. Eu já fiz a conta dessa audiência contra a TV aberta em Cazé TV bateu a Globo? Fiz a conta na régua do Ibope.
Primeiro: a internet é colaborativa, e cada rede tem um número
Pra entender como o vídeo chega em milhões de casas, você precisa entender uma coisa antes: a internet é realmente colaborativa. Ela é feita de várias redes independentes que combinaram de conversar. Cada uma dessas redes é um sistema autônomo, o AS — ou ASN, se for falar na gringa.
Como é que eu tenho o meu? Eu mando a documentação pro NIC.br, o braço do Comitê Gestor da Internet no Brasil, e falo: "eu quero ter o meu bloco de IPs". É bem burocrático, é a mesma documentação de um provedor de internet. No caso de um CDN, que é o meu, mesma coisa. Eles te dão o número do AS e você passa a ter um bloco de IP seu.
- IPv6: libera na hora, porque IPv6 é, na prática, ilimitado.
- IPv4: meu amigo, você vai entrar numa fila que eu não sei se você vai sair dela. O IPv4 acabou. Só tem IP quando pegam um bloco de algum lugar, fazem o processo de recuperação e trazem pra outro.
Eu gastei 8 meses na fila pra receber o meu bloco IPv4. E ele veio de onde deu: era um bloco recuperado da África. Tem toda uma hierarquia nisso — a ICANN no topo, a LACNIC cuidando da América Latina, o NIC.br aqui. E é engraçado: lá no começo da internet, era um cara que cuidava disso no papel. Era um negócio de faculdade, de professor, todo mundo confiava em todo mundo. Até hoje, nesse ponto, a internet depende muito de confiança. Contei a via-crúcis inteira do IPv4 em quanto custa comprar um bloco de IPv4 hoje.
Roteador de borda e BGP: como a minha rede diz "eu existo"
Dentro do AS você precisa de um router. E não é o roteador de casa, não. São equipamentos que, dependendo do throughput — do tanto de tráfego que aguentam —, custam muito mais caro: Arista, Huawei, Mikrotik, tem vários. Eu trabalho com Huawei hoje, porque tenho portas de 100 giga neles. É vídeo, gente. Vídeo é brabo.
Esse router fala um protocolo chamado BGP, o Border Gateway Protocol. Não sabe o que é? Pausa aqui. Imagina que o meu AS é o 123, o seu é o 3456 e tem um terceiro, o 789. Quando eu, Josimar, quero que o AS 101112 me encontre, eu configuro no meu router: "olha, gente, eu sou o AS 123, eu tô aqui no mundo". Isso é o anúncio de prefixo: eu anuncio o meu bloco de IP pro mundo. E aí o BGP de todo mundo começa a me enxergar.
Sabe quanto demora? Operadora já te falou que é 5 dias, 10 dias? Mentira. Uns 20 minutos. Quando eu divulgo o meu AS, em 20 minutos o trem já foi pra todo lado. A especificação do protocolo, se você quiser ler a letra, é a RFC 4271, do BGP-4.
Antes de anunciar, eu esqueci de falar: você precisa de um link puro, o link dedicado de uma operadora, que conecta o AS da operadora no seu. E a partir dali é um emaranhado: a operadora tem saída pra cá, pra lá, pro Google, pra Amazon. A melhor analogia são rodovias: você tem várias formas de chegar no mesmo ponto, às vezes dá uma volta maior, às vezes menor — e nem sempre a rota menor é a melhor, mas isso é aula de BGP, que eu não vou dar aqui.
Cada AS que o seu pacote atravessa é um salto. Cada posto de gasolina que você para pra abastecer, cada cancela que você passa. Quanto mais salto, em tese, mais demora. É daí que vem a latência que a galera de jogo tanto fala: quantos saltos existem entre o servidor e o seu provedor.
O lado ruim da confiança: rota errada derruba gigante
Se eu configuro um AS errado, eu posso derrubar o AS do cara. Existe sequestro de rota, spoofing de IP, DDoS, um monte de rolo. Se o provedor não estiver bem protegidinho, dá pra sequestrar o anúncio de outro lugar e derrubar um pedaço grande da internet. Lembra do dia em que o WhatsApp e o resto da Meta ficaram fora quase o dia inteiro? Teve a ver com rota.
Aqui eu me corrijo na data e afino a causa. No ar eu disse que tinha sido "há um ano, mais ou menos". Foi em 4 de outubro de 2021. E não foi sequestro: segundo o relatório de engenharia da própria Meta, um comando de manutenção que deveria só medir a capacidade do backbone derrubou todas as conexões do backbone da empresa. Os servidores de DNS deles, que são programados pra retirar os próprios anúncios BGP quando perdem contato com os data centers, fizeram exatamente isso — e o mundo parou de enxergar o Facebook, o Instagram e o WhatsApp. O recado que eu dei continua de pé: rota é coisa séria, e um erro de BGP tira gigante do ar.
A conta do link que não fecha
Agora vem a parte que eu queria que você enxergasse. O YouTube tem o AS dele, igual a gente tem o nosso, no data center do Google. Eu estou hoje em São Paulo, do lado do data center do Google — o Google é um galpão inteiro, nós somos um rackzinho lá, na humildade. Mas estamos no mesmo ambiente físico do Google, do Facebook, da Cloudflare.
O usuário sai do provedor dele, dá as voltas que precisar dar pelas rodovias e chega no Google. Acha a live. E live na internet é chunk: eu pego o vídeo, divido em pedaços de 1, 2, 3 segundos e faço o stream contínuo. Chunk 1, 2, 3, em tempo real, o pau quebrando.
Vamos supor uma transmissão a 1 Mbps. É uma qualidade horrorosa, mas é pra fazer conta rápida. Faz comigo:
- 3 pessoas assistindo: 3 Mbps saindo do Google. Tranquilo.
- 300 pessoas: 300 Mbps. Até aí, beleza.
- 3.000 pessoas: 3 Gbps. Pra provedor de cidade pequena isso já é um bom link. Tem muito provedor que opera com 1 giga compartilhado com todo mundo.
- 300.000 pessoas: 300 Gbps. Não é ida e volta — vai a requisição e volta o streaming —, mas são 300 giga que alguém tem que entregar.
- 5 milhões de pessoas: 5 terabits por segundo, saindo de um lugar só.
Você acha que o Google tem esse link todo lá no data center dele? Ele tem link pra caramba, viu — é fibra com força, e é tudo secreto, a gente passa na frente e não tem acesso. Mas não tem link suficiente pra fornecer isso pra todo mundo direto. E do outro lado, o provedor, no momento de pico, também não tem como receber.
Pega uma cidade igual a minha, de uns 250 mil habitantes. Fazendo a proporção com a audiência de milhões, aqui deve ter tido pelo menos umas 2, 3 mil pessoas assistindo. Foi embora aí uns 3, 4 gigas de link. Pra um provedor pequeno, 3, 4 gigas é muito. Agora soma outro provedor, e outro, e outro. Se de repente fossem 30 mil acessos, o provedor caía.
Sabe o "bufferizando"? É isso. Quando a sua live começa a bufferizar muito, alguém no caminho está sem link: ou a origem, ou alguém no meio da rodovia, ou o seu provedor. Alguém está comendo bola. Aí entra a engenharia de rede: verificação, latência, throughput. Eu já desenhei onde some cada segundo de atraso nesse caminho em o delay de 40 segundos da Cazé TV — aqui o assunto é outro: como o volume cabe.
Um adendo: trocar de operadora às vezes não muda nada
Muita operadora usa o link uma da outra. Por isso às vezes você troca de internet e fica a mesma coisa: a Vivo cedeu as fibras do meio do caminho pra Oi ou pra Claro e vice-versa. São acordos bilaterais de trânsito: "você é melhor em São Paulo, eu sou melhor no Rio; me dá a sua fibra aqui que eu te dou a minha ali". Isso é normal, é acordo comercial, faz parte do jogo. Não estou dizendo que são todas as operadoras nem todos os links. Estou dizendo pra você entender como o negócio funciona: no meio do caminho, muitas vezes é o mesmo cano.
Peça 1 — o ponto de troca de tráfego: todo mundo pega no mesmo lugar
Há muito tempo a galera viu essa pauleira de vídeo crescendo e falou: "cara, não dá. Como é que a gente vai sustentar isso?". E criaram o ponto de troca de tráfego — tem vários nomes: IX, PTT. O Google conecta uma fibra ali. O provedor conecta uma fibra ali. Entendeu a maldade?
Em vez de o Google ter fibra pra cada um, ele solta ali uma porta de 100 GB, mais 400 GB, e o provedor pega. E não é só esse provedor: esse pega, aquele pega, o outro pega. Todo mundo pega do ponto de troca de tráfego, sem pagar trânsito. O maior do Brasil é o de São Paulo. Eu estou lá trocando tráfego com centenas de operadoras, e é por isso que, na minha operação, tem cliente com download de chunk na casa dos 20 milissegundos — um troço surreal de rápido.
No Brasil, o projeto se chama IX.br e é do NIC.br. Conferi no site deles em 16/10/2026: o 40º ponto foi inaugurado no Amapá, com operação prevista pra 25 de setembro, e com ele o projeto alcança todos os estados brasileiros.
Só que tem um problema. Eu estou no interior de Minas. Como é que eu vou atravessar uma fibra de 500 km até São Paulo? Quanto custa isso? Ah, aí eu vou ter que pagar trânsito — e trânsito dos 300 giga que eu falei lá atrás. Fica caro. O ponto de troca de tráfego sozinho não resolveu o problema da galera.
Como é que se resolve? Pausa e pensa, depois continua.
Peça 2 — o cache dentro do provedor: o truque que fecha a conta
Primeiro, o que é cache. Sabe quando você atualiza a página e a imagem velha continua lá, porque ficou no seu navegador? É o bendito cache. Se você é dev, conhece: "funciona na minha máquina, deve ser cache". Essa é velha, mas eu não podia deixar passar.
Agora a live. A CazéTV conecta lá no YouTube um RTMP e um RTMP de backup. Quem já fez live no YouTube sabe como é. O YouTube faz o encode e transforma o sinal em pacotes de stream — HLS, DASH, cada um com o seu encapsulamento, codec de áudio e de vídeo, que eu não vou detalhar aqui. E aí, em vez de sair 300 mil links do data center, sai um link pra um servidor de cache. Esse servidor guarda os chunks na memória RAM, que é muito rápida, e solta milhares de chunks muito mais rápido do que se cada um fosse buscar direto na origem.
Só que o Google não tem um servidor de cache. Ele tem uma quantidade absurda deles. E algum gênio da engenharia de rede, em algum momento, falou: "por que eu não pego esse servidor que está servindo o PTT de São Paulo e boto lá dentro do provedor do cara?". Um equipamento físico, acoplado, com cláusula pra caramba — pro provedor não mexer, não ver a tecnologia, multa do tamanho do mundo. Mas aí eu tenho um servidor de cache dentro do provedor.
E dentro do provedor é o quê? Rede local. O provedor já tem fibra dos servidores dele até todos os clientes. Se esse provedor tem 5 mil assinantes assistindo, ele não gasta um real a mais de trânsito pra entregar 5, 10, 300 mil pessoas simultâneas. A live chega uma vez pelo link, passa pelo PTT ou pelo trânsito normal, cai no cache, e sai pela fibra que já existe. Entendeu a lógica?
Agora repete isso num provedor, no outro, no outro. No exemplo de 1 Mbps que eu dei, eu tenho três links de 1 mega alimentando três caches — e eles entregando centenas de gigas pra quem está assistindo. É genial. Engenharia de rede, olha que fantástico.
Conferi depois na letra do Google (16/10/2026). A página oficial do Google Global Cache — é GGC, no ar eu chamei de "GPC", errei a sigla — diz que ele "allows ISPs to serve certain Google content from within their own networks": o provedor serve conteúdo do Google de dentro da própria rede. O Google entra com o hardware, o provedor com espaço, energia e conexão, e entre as informações que o provedor precisa passar estão o ASN dele e o IP pra uma sessão BGP com o servidor. Ou seja: tudo o que eu expliquei lá em cima, AS e BGP, é exatamente o que liga a caixa do Google na rede do seu provedor.
A Netflix faz o mesmo — e a parte que eu afino
Eu citei o YouTube, mas fala pra mim outro gigante de vídeo que faz a mesma coisa. Netflix. Ela tem cache em vários e vários provedores grandes, além de estar nos pontos de troca de tráfego. E eu falei no ar que a Netflix economizou milhões de dólares quando deixou a nuvem de lado e foi pra infraestrutura própria.
Aqui eu afino o que eu disse. A rede de entrega de vídeo da Netflix é dela mesma e se chama Open Connect: a própria Netflix diz que faz parceria com mais de mil provedores pra colocar os servidores dela dentro deles, e que esses servidores são entregues sem custo pros provedores que cumprem os requisitos básicos dela. Agora, o resto do serviço — catálogo, cadastro, recomendação — a Netflix roda na nuvem: o comunicado da própria Netflix conta que ela concluiu a migração pra AWS em janeiro de 2016 e que "video is delivered through Netflix Open Connect". Então o certo é: a entrega do vídeo, que é onde está o tráfego pesado, é própria; o resto é nuvem. É a divisão que faz sentido, e é a lição que eu queria passar.
E o mesmo vale pra troca de tráfego direta. Eu tenho troca de tráfego, por exemplo, com a Apple e com o Google. Quem assiste as lives dos meus clientes pelo iPhone tem latência e delay bem menores, porque o caminho é curto.
A dor do provedor pequeno
Antes de fechar, o adendo que dói. O Google não vai mandar um servidor de 200 mil dólares pra qualquer provedor. Muitas vezes o provedor tem que pagar, ou simplesmente não se qualifica. Repare que até a Netflix escreve "provedores que cumprem os requisitos": o pequeno, muitas vezes, fica de fora.
E aí o provedor pequeno não tem essa facilidade. Dia de jogo, ele gasta o link todo, começa a bufferizar, e o assinante culpa o YouTube. É por isso que os caras fazem de tudo pra entrar no PTT e conseguir um cache dentro de casa — e é por isso que, quando eu desenho uma arquitetura que mexe com vídeo, eu penso em onde o conteúdo vai estar em relação a quem assiste, não só em quantos servidores eu tenho. Na minha empresa é assim que a gente entrega milhares de pessoas simultâneas e milhões de views por dia: troca de tráfego no PTT de São Paulo, com operadores do interior de São Paulo e de Belo Horizonte.
Se você vai arquitetar software que mexe com vídeo, você tem que conhecer isso. Tem várias soluções, uma mais legal que a outra, mas você precisa ter a dimensão do problema. Escalar servidor não resolve o que é problema de rede — eu já falei disso em autoscale não salva aplicação mal feita. E se você quer aprender infraestrutura desse jeito, com a mão na massa, é o assunto da Imersão de Infraestrutura.
Teste em casa: o seu provedor está no PTT?
Tem um jeito simples de saber. Esquece o ping sozinho e roda um MTR, que mede cada salto do caminho e a latência de cada um, até um destino em São Paulo.
- Instale o MTR (no Linux,
mtr; no Windows, o WinMTR) e rode até um serviço hospedado em São Paulo. - Quatro ou cinco saltos: o seu provedor, em geral, está conectado ao PTT.
- Dez, quinze saltos: é o caminho comum, passando por operadoras no meio.
- Salto que não responde no meio não é necessariamente problema: tem provedor que bloqueia o ping em alguns equipamentos.
E o caso mais doido que eu já vivi com isso: a gente tem aqui um provedor local que fornece link pra gente e que tem conexão com o PTT de São Paulo — onde a gente também está. Já aconteceu de a nossa internet comum cair e a gente continuar acessando normalmente os nossos servidores. A empresa sem internet, e tudo funcionando, porque o caminho era por dentro do PTT. Olha que doideira.
Eu fiz esse vídeo porque nunca vi ninguém explicando como os caras entregam isso sem travar. Se fez sentido pra você, manda pra um colega de rede ou de dev.
Discorda? Concorda? Tem um caso parecido? Aqui não tem caixa de comentário de propósito: segunda-feira, ao meio-dia, eu faço live no canal e a gente conversa sobre isso ao vivo — sem corte, como sempre.
Ver as lives no canal @josimarjmv →Perguntas frequentes
Como o YouTube consegue transmitir ao vivo para milhões de pessoas ao mesmo tempo?
Não mandando a live direto do data center pra cada casa. Nem o Google tem link pra isso: a 1 Mbps por pessoa, que é qualidade ruim, 5 milhões de espectadores já pedem 5 terabits por segundo saindo de um lugar só. O que fecha a conta são duas peças: o ponto de troca de tráfego, onde o Google e centenas de provedores trocam tráfego direto, sem pagar trânsito, e o servidor de cache que o Google instala dentro do provedor, que recebe a live uma vez e distribui pela rede local pra todos os assinantes.
O que é o Google Global Cache?
É o servidor de cache que o Google coloca dentro da rede do provedor. A documentação do Google diz que ele permite ao provedor servir parte do conteúdo do Google de dentro da própria rede; o Google entrega o hardware, o provedor entra com espaço, energia e conexão, e a ligação é feita com uma sessão BGP. A live chega uma vez na caixa e sai muitas vezes pela fibra que o provedor já tem.
O que é ponto de troca de tráfego, PTT ou IX?
É um lugar físico onde várias redes ligam uma fibra e trocam tráfego direto entre si. Em vez de pagar trânsito pra buscar o vídeo longe, o provedor pega ali, do lado do Google. No Brasil o projeto é o IX.br, do NIC.br, que chegou a 40 pontos em setembro de 2026 e alcança todos os estados. O maior é o de São Paulo.
O que é sistema autônomo, AS ou ASN?
É a identidade de uma rede na internet: um número de AS e os blocos de IP que ela anuncia pro mundo. No Brasil quem concede é o NIC.br, com documentação de provedor. IPv6 sai na hora; IPv4 tem fila, porque acabou e só existe quando um bloco é recuperado. Eu esperei 8 meses pelo meu, recuperado da África.
O que é BGP e por que um erro de BGP derruba sites gigantes?
É o protocolo que os roteadores de borda usam pra dizer ao resto da internet quais blocos de IP existem atrás de cada AS e por onde chegar neles. Um anúncio propaga em uns 20 minutos. A internet funciona muito na confiança, então anúncio errado tira rede do ar. Em 4 de outubro de 2021 a Meta ficou horas fora porque um comando de manutenção derrubou o backbone dela e os servidores de DNS retiraram os próprios anúncios BGP.
Por que a live trava no jogo do Brasil e não no resto do dia?
Porque é o único momento em que quase todos os assinantes do provedor puxam a mesma coisa ao mesmo tempo. Sem cache dentro de casa e sem PTT, todo esse volume sai pelo link de trânsito contratado, e esse link tem tamanho. Encheu, bufferiza. Na maioria das vezes que eu vejo, quem não aguentou foi o provedor local.
Como eu sei se o meu provedor está conectado ao ponto de troca de tráfego?
Rode um MTR até um destino em São Paulo. Na minha experiência, quatro ou cinco saltos indicam que o provedor está no PTT; dez ou quinze é o caminho comum. Alguns provedores bloqueiam o ping em certos saltos, então um salto mudo no meio não quer dizer que caiu.
A Netflix faz a mesma coisa que o YouTube?
Faz. A rede de entrega dela, a Open Connect, coloca servidores da Netflix dentro de mais de mil provedores, sem custo pros que cumprem os requisitos dela, e troca tráfego nos PTTs. O resto do serviço, que não é vídeo, roda na AWS desde 2016. O que é dela mesma é a entrega do vídeo, onde está o tráfego pesado.
Baseado na gravação do canal @josimarjmv publicada em 24/05/2026 (23min26), com transcrição própria das legendas do próprio vídeo.
O que veio da gravação e o que é apuração minha, com as fontes
Da gravação: a convocação da Seleção e as várias lives simultâneas; o recorde da CazéTV citado de cabeça; sistema autônomo, número de AS e bloco de IP pedidos ao NIC.br com documentação de provedor; IPv6 na hora e fila do IPv4, com os meus 8 meses de espera e o bloco recuperado da África; routers Huawei com portas de 100 giga; BGP, anúncio de prefixo em uns 20 minutos, link dedicado, rotas como rodovias e saltos como cancelas; sequestro de rota e a queda da Meta; ping e MTR; o rack no mesmo prédio do Google em São Paulo; chunks de 1 a 3 segundos; a conta de 1 Mbps por pessoa de 3 até 300 mil espectadores; a cidade de 250 mil habitantes; operadoras compartilhando fibra em acordos de trânsito; o PTT com portas de 100 e 400 GB, a troca de tráfego com centenas de operadoras e os 20 milissegundos de chunk; a fibra de 500 km do interior; ingest por RTMP com backup, HLS e DASH, cache em RAM e o cache dentro do provedor; a Netflix; o servidor de 200 mil dólares que não vai pra provedor pequeno; a troca de tráfego com Apple e Google; o teste de MTR e o dia em que a internet comum caiu e o acesso pelo PTT continuou.
Apuração minha (16/10/2026): a conta de 5 milhões a 1 Mbps (5 Tbps) é aritmética minha sobre o exemplo do quadro. Recordes da CazéTV na Copa de 2026 pela Máquina do Esporte (12,7 milhões contra o Marrocos) e pelo TecMundo (18,6 milhões contra a Escócia). Protocolo BGP-4 na RFC 4271. Causa e data da queda da Meta no relatório de engenharia da Meta de 05/10/2021. Funcionamento do GGC na documentação do Google Global Cache. Número de pontos e estados do IX.br. Open Connect e servidores sem custo para provedores qualificados no site do Open Connect; migração da Netflix para a AWS concluída em janeiro de 2016 no comunicado da Netflix.