Josimar MachadoJMV Technology · 2003 —
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Aporte financeiro no SaaS: as cláusulas que expulsam você da própria empresa

Já recebi proposta de fundo que mexeu comigo: eu podia aposentar. Mas eu ficaria anos sem trabalhar com vídeo, teria que pedir bênção pra tudo e eles iam demitir todo mundo de Minas Gerais. Antes de olhar o valor do aporte, olhe o contrato.

Josimar Machado
Josimar Machado
Fundador, JMV Technology

🎧 PREFERE OUVIR? · 18 min · Podcast Em Produção

Este artigo também é um episódio do podcast Josimar JMV | Em Produção — o mesmo vídeo, só o áudio, normalizado pra fone.

Gravado em 14·10·2026 · 18 minAssistir no YouTube ↗

Gravei esses 17 minutos no canal @josimarjmv pra série Viver de software, viver de SaaS. Assista e leia junto: aqui embaixo eu conto a mesma coisa por escrito, com a conta do juro e o que eu fui conferir depois.

Resposta rápida

aporte financeiro no SaaS não é bom nem ruim: depende do contrato. Eu sou bootstrap e já fui convidado tanto a receber quanto a pôr dinheiro em SaaS. As cláusulas que mais tiram o fundador da própria empresa são quatro: o aporte que vira dívida se você não acompanhar a próxima rodada, a diluição das suas ações, a não concorrência depois da venda e o fundo decidindo tudo. E no Brasil, com juro alto, o investidor ainda compara o seu SaaS com deixar o dinheiro parado rendendo a Selic.

Não é visão contra nem a favor de aporte

Você fez um SaaS, ou está fazendo, e quer receber aporte financeiro. Essa é uma dúvida que ronda a cabeça de todo dono de SaaS, de software, de software house. A tentação às vezes é grande. Eu não sou contra nem a favor: acho que tudo depende muito. O que eu trago é como eu vejo isso, o que já aconteceu comigo e o que passa na cabeça do investidor, porque eu também já fui convidado a investir em outros softwares e a ser parceiro de SaaS.

Vou dar minha carteirada antes: eu tenho empresa de tecnologia desde os 18 anos de idade, com o mesmo CNPJ de hoje. Passei por todas as fases da TI: hardware, software, site, SaaS, venda de software, software house. Além de dono, sou hands-on: tenho CDN entregando conteúdo no Brasil e nos Estados Unidos, desenvolvo, vendo e ponho no ar. Não é a visão de quem só vende, só faz marketing ou só escreve linha de código.

O bolo de morango

Sabe a história da tia do bolo de morango? A tia fez o bolo e deu pra um cara experimentar. "Tá faltando morango." Ela fez de novo. "Tá faltando açúcar." "Mas então qual é a receita perfeita?" "Ah, não sei, eu não faço bolo."

É o que mais tem na internet: gente que nunca fez nada na vida querendo te ensinar. Eu cansei de papagaio digital. E o pior não é ele ganhar o seu dinheiro: é acabar com o seu sonho. Aqui você vai ter a realidade, e a realidade às vezes é dura. Aporte financeiro é uma delas.

Quando sou eu o investidor: o que eu olho num SaaS

Depois do canal, disparou convite: "Josimar, me ajuda com o meu SaaS, investe no meu SaaS, me dá infraestrutura pro meu SaaS". Vocês não têm ideia. O LinkedIn então está um negócio. E é essa visão de investidor que você tem que ter antes de se apresentar a um.

  1. O tamanho do mercado. Eu atuo num subnicho do subnicho. Como descobre o tamanho? Estatística de governo, quanto rodou de dinheiro naquele mercado. É matemática: rodou tantos milhões, tantos bilhões, e você já sabe o tamanho.
  2. Os concorrentes. Quem são, e se tem algum recebendo um aporte gigante pra ganhar fatia de mercado em detrimento de faturamento.
  3. O retorno contra o dinheiro parado. Essa é a que mais pesa hoje, e eu explico logo abaixo.

E deixo claro: eu não sou especializado em fusão e aquisição. Esses dias, numa reunião em Belo Horizonte, conheci um cara que já fez mais de 3.000 tentativas de aquisição de empresa e teve sucesso com umas 300. Esse é do ramo. Eu sou o dono de SaaS que já esteve dos dois lados da mesa.

Eu sou bootstrap

A minha visão não é "quer mais dinheiro pra crescer". Eu boto dinheiro no marketing, tem que voltar, eu boto mais, e vou crescendo desse jeito. A visão de "bota R$ 100 milhões, deixa o pau quebrar e depois a gente recupera" aconteceu muito antes, e hoje está bem mais restrita. Tanto que vieram os layoffs de desenvolvedor: acabou o dinheiro fácil. Se você ainda está decidindo o modelo do negócio, a diferença entre SaaS e software house eu contei em SaaS ou software house? O atraso que custou R$ 263 mil.

Também não vou falar de captação na gringa. Aporte estrangeiro é pra quem bota a mochila nas costas e vai apresentar nos Estados Unidos, no México, na Espanha, e isso está fora da realidade da maioria. Aqui é o Brasil, por mais que alguns fundos daqui tenham dinheiro de fora.

A conta do juro: por que o investidor prefere o dinheiro parado

No Brasil a gente tem uma das maiores taxas de juro. Quem tem dinheiro deixa ele rendendo 14%, 15% sem fazer nada e sem risco. Agora faz a conta comigo.

"Josimar, banca a infraestrutura do meu SaaS por um ano?" Isso dá R$ 200 mil. Beleza. O seu SaaS tem que dar lucro suficiente pra se pagar, pagar você e me devolver esses R$ 200 mil com no mínimo uns 5% a 10% acima da Selic, porque a Selic eu já tenho em investimento básico. Que mercado dá esse lucro, num negócio pequeno, em um ano? Por isso é difícil o cara querer botar grana. Por que eu vou ter dor de cabeça? Deixo o dinheiro lá e vou viajar.

Conferi em 15 de outubro de 2026, na série histórica do Copom no Banco Central: a meta da Selic começou 2026 em 15% ao ano e foi cortada em todas as reuniões até 17 de setembro, quando chegou a 13,75%. Ou seja, o "14%, 15%" da minha conta é exatamente a faixa em que o juro andou neste ano.

Se o investidor pegaEle vai querer do seu SaaSO que acontece
Selic na casa dos 14%, 15%O dinheiro de volta + uns 5% a 10% acima da SelicPoucos negócios entregam: o aporte em startup despenca
Selic caindo pra 9%, 8%, 7%Retorno menor: quem queria 25% passa a aceitar uns 10%Deixar parado vale menos, e mais dinheiro procura startup

As cláusulas que expulsam você do próprio SaaS

Agora vamos pro cenário de quem quer diversificar, de quem tem como trabalho ser fundo de investimento em empresa e startup. Aí a gente entra nas maldades. E algumas eu já recebi na empresa.

1. O aporte que vira dívida

A sua empresa foi avaliada em R$ 10 milhões. Você foi pra uma rodada de captação porque precisava de uns R$ 20 milhões pro negócio crescer, e o fundo entrou com R$ 20 milhões por tantos por cento. Na próxima rodada, se eles botam mais 20, ou você bota igual ou vira dívida pra você pagar com juro e tudo. E você não vai ter essa grana. Aí começa o balaio de gato pra você ser expulso da sua própria empresa.

2. A diluição das suas ações

Outro balaio de gato: a cláusula que não vira juro, mas corta a sua quantidade de ações. O fundo botou 20 e vai botar mais 20. Se você não tiver o dinheiro pra investir junto, eles debitam das suas ações. Você tinha 40%, agora tem 30%. Até o dia em que te expulsam também. É assim que funciona. O mundo é mau.

3. A não concorrência

Se você vender a empresa, não pode atuar naquele mercado durante x anos. Isso é básico: todo contrato de aquisição reza isso.

4. Pedir bênção pra tudo

Você teve a ideia e executou, e ideia o mundo está cheio; executar é outra história. Já tem dinheiro entrando, tem usuário. Aí recebe o aporte e o contrato manda pedir bênção pra tudo. A direção da empresa agora é controlada pelo fundo, não é compartilhada. Você não é mais o CEO, o diretor ou o CTO que decide: quem decide é o fundo. Se te deram luvas de milhões e garantiram a sua aposentadoria e você não liga, tudo certo, vai de cada um. Mas saiba como funciona antes de assinar.

Faço questão de lembrar: nada disso é irregular. É método legal, está no contrato. Por isso, na hora de receber aporte, não basta o "eu quero investir na sua empresa". Você tem que ver como esses caras trabalham e como é o contrato deles, porque o que mais acontece é gente sendo expulsa da própria empresa por questão de ação.

A proposta que mexeu comigo, e por que pesou

Eu já tive algumas sondagens, umas mais sérias, há uns anos, quando a gente estava com escritório em Minas, em São Paulo e em Lisboa. Teve um fundo que veio bem a sério. Foi uma proposta que balançou meu coração: eu podia aposentar, se é que você me entende.

Mas olha o que vinha junto:

  • eu não ia poder trabalhar com vídeo durante uns anos, e eu gosto muito de trabalhar com vídeo;
  • eu seria obrigado a ficar na empresa por mais um ano, querendo ou não;
  • depois disso, se eu ficasse, ia ter que pedir bênção pra tudo, e o rumo da empresa seria outro;
  • e o que mais doeu: eles iam demitir todo mundo de Minas Gerais e mandar tudo pra São Paulo. Iam pagar tudo certinho, mas iam cortar todo mundo de Minas.

Isso mexeu muito comigo. Muita gente que eu gostava, que gostava do que fazia, que gostava de mim. Foi pesado. Tentei negociar, eles não negociaram. E tem mais um detalhe: a empresa se chama JMV Technology, e acredite, JMV não são as iniciais do meu nome. Fica a curiosidade.

O que muda quando o juro cair

Gravei antes do segundo turno das eleições de 2026, e o dólar já tinha caído, a bolsa disparado e o juro futuro começado a cair. A minha leitura, em tese: com o juro futuro caindo, o juro cai, e aí fundos, empresas e pessoas como eu começam a olhar e falar "a Selic está 9%, 8%, 7%, já não vale tanto a pena deixar o dinheiro parado". Quem antes queria 25% em cima do dinheiro investido vai aceitar uns 10%. Entendeu a conta? Mais dinheiro no mercado pra gente receber aporte.

Hoje é o contrário: os investimentos em startup no Brasil despencaram perto de outros anos, porque vale muito mais deixar o dinheiro rendendo do que pôr numa empresa que pode quebrar. É capital de risco: o negócio pode dar errado e o fundo fica sem o dinheiro. Não vou entrar em detalhe de investimento; pra isso, consulte o seu agente financeiro.

Enquanto o dinheiro de fora não vem, a conta de quantos clientes você precisa pra viver do próprio SaaS sem depender de fundo eu abri em ficar rico com SaaS: a conta dos 250 clientes. E se o seu gargalo é tirar o cliente do concorrente, está em ninguém migra pro seu SaaS: as 2 perguntas que eu respondo.

Antes da rodada de captação, um SaaS em produção

Antes de você cair numa rodada pra receber aporte, você precisa entender o SaaS inteiro: parte contábil e financeira, marketing, venda, infraestrutura, desenvolvimento, quando vale a pena treinar e quando vale a pena contratar. Eu já gastei milhões de reais em curso ao longo da vida, e mais uma cacetada testando as coisas no dia a dia, porque eu transito do desenvolvimento ao pós-venda.

É isso que eu levo pra Imersão de SaaS, presencial em São Paulo, em três dias: o que eu aprendi nos últimos 20 anos coordenando marketing, suporte, venda, pós-venda, infraestrutura e desenvolvimento, e implementando robôs agênticos de verdade cuidando de pipeline, pra deixar tudo em produção. Formato, data e condição são os da página dela, não desta gravação.

Nota de cronologia

O vídeo foi ao ar em 14 de outubro de 2026 e este texto saiu em 15 de outubro de 2026. Gravei antes do segundo turno das eleições; a leitura sobre o juro futuro é de antes do resultado. A proposta do fundo é de "uns anos atrás", da época dos escritórios em Minas, São Paulo e Lisboa; não cravei o ano. A Selic de 13,75% é a meta vigente desde 17/09/2026, conferida no Banco Central na data deste texto.

TODA SEGUNDA · MEIO-DIA · AO VIVO

Discorda? Concorda? Tem um caso parecido? Aqui não tem caixa de comentário de propósito: segunda-feira, ao meio-dia, eu faço live no canal e a gente conversa sobre isso ao vivo — sem corte, como sempre.

Ver as lives no canal @josimarjmv →

Perguntas frequentes

Vale a pena receber aporte financeiro no meu SaaS?

Depende. Eu não sou contra nem a favor: eu sou bootstrap, ponho dinheiro no marketing, ele volta e eu ponho mais. Se você for receber aporte, leia o contrato antes do valor. O que mais acontece é gente sendo expulsa da própria empresa por cláusula que não leu.

Que cláusulas de aporte podem tirar o fundador da empresa?

As que eu vejo: o aporte que vira dívida com juro se você não acompanhar a próxima rodada; a diluição, em que o fundo debita das suas ações quando você não põe dinheiro junto; a não concorrência, que te proíbe de atuar no mercado por alguns anos depois de vender; e o controle, em que você passa a pedir bênção ao fundo pra tudo.

O que um investidor olha antes de pôr dinheiro num SaaS?

Quando sou eu o convidado, eu olho o tamanho do mercado (estatística de governo, quanto rodou em dinheiro naquele setor), quem são os concorrentes e se algum concorrente está recebendo um aporte gigante pra ganhar mercado em vez de faturar. E faço a conta do retorno contra o que o dinheiro já rende parado.

Por que está tão difícil conseguir aporte no Brasil?

Porque o juro está alto. Com a Selic na casa dos 14%, 15%, quem tem dinheiro ganha isso sem risco. Pra eu bancar R$ 200 mil de infraestrutura de um SaaS por um ano, ele teria que me devolver o dinheiro e ainda pagar uns 5% a 10% acima da Selic. Poucos negócios entregam isso.

O aporte em startup vai voltar a crescer?

Minha leitura é que, quando o juro futuro e a Selic caírem, deixar o dinheiro parado vai valer menos a pena e mais fundo e mais gente como eu vai olhar pra startup, aceitando retorno menor. Não é recomendação de investimento: consulte o seu agente financeiro.

O que é cláusula de não concorrência numa venda de empresa?

É a cláusula que, quando você vende a empresa, te proíbe de atuar naquele mercado por um número de anos. Todo contrato de aquisição que eu vi traz isso. Na proposta que eu recebi, eu não poderia trabalhar com vídeo por uns anos.

Já recebi proposta de fundo. O que eu deveria perguntar?

Como esse fundo trabalha e como é o contrato dele. O que acontece se você não acompanhar a próxima rodada, quanto da sua participação pode ser debitada, quanto tempo de não concorrência, quanto tempo você é obrigado a ficar e quem decide o rumo da empresa daqui pra frente.

Baseado na gravação do canal @josimarjmv publicada em 14/10/2026 (17min39), com transcrição própria das legendas do próprio vídeo.

O que veio da gravação e o que é apuração minha, com as fontes

Da gravação: a série viver de software, viver de SaaS; não ser contra nem a favor de aporte; ter sido convidado a investir e a ser parceiro de SaaS; a empresa desde os 18 anos com o mesmo CNPJ, as fases da TI e a CDN no Brasil e nos Estados Unidos; a história da tia do bolo de morango e o papagaio digital; os convites que chegam depois do canal; o que eu olho como investidor (tamanho do mercado por estatística de governo, concorrentes, concorrente com aporte gigante); ser bootstrap; o fim do dinheiro fácil e os layoffs; não falar de captação na gringa; o empresário de Belo Horizonte com mais de 3.000 tentativas de aquisição e umas 300 com sucesso; não ser especializado no assunto; os 14%, 15% de juro sem risco; a conta dos R$ 200 mil de infraestrutura por um ano e dos 5% a 10% acima da Selic; o exemplo da empresa avaliada em R$ 10 milhões e da rodada de R$ 20 milhões; o aporte que vira dívida; a diluição de 40% para 30%; a não concorrência; o pedir bênção pra tudo; a leitura de que o juro futuro vai cair e a troca de 25% por 10%; a queda do investimento em startup no Brasil; a proposta do fundo da época dos escritórios em Minas, São Paulo e Lisboa (aposentar, não trabalhar com vídeo por uns anos, ficar mais um ano, pedir bênção, demitir todo mundo de Minas Gerais, a negociação que não andou); JMV não ser as iniciais do meu nome; e o convite para a imersão presencial em São Paulo. Ficaram fora deste texto: o comentário político sobre governo e candidatos do segundo turno, o percentual de famílias endividadas que eu citei de cabeça e não conferi, e o preço da imersão.

Apuração minha (15/10/2026): a meta da Selic na série histórica de taxas de juros do Copom, no Banco Central (série 432 do SGS): 15% ao ano no início de 2026, 14,75% em 19/03, 14,50% em 30/04, 14,25% em 18/06, 14% em 06/08 e 13,75% desde 17/09/2026. A tabela da conta do juro e a organização das quatro cláusulas são minhas, feitas depois, em cima do que eu disse. Os valores do exemplo de rodada (R$ 10 milhões, R$ 20 milhões, 40% e 30%) são ilustração da gravação, não um caso real com números conferidos. Preço, data e condição da imersão não entram neste texto: valem os da página dela.

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