Esse aqui não é vídeo de contratação nem de técnica. É sobre ser humano, responsabilidade e família — e sobre duas coisas que eu vi de perto acabando com o trabalho de gente talentosa que trabalhava comigo.
Resposta rápida: um freelancer talentoso, indicado por uma escola, entregou o primeiro projeto redondo, atrasou o segundo em 15 a 20 dias e quebrou o terceiro logo na fase um. Peguei o carro e fui na casa dele sem avisar: a esposa varrendo o portão, ele no computador — e um alt+tab quando eu entrei. Não era falta de talento nem de tempo; era jogo em horário de trabalho. Alguns anos depois, num segundo caso, um colaborador do suporte noturno perdeu uma licitação por cinco minutos de atraso; no equipamento dele apareceu pornografia em horário de expediente. As duas histórias apontam pra mesma coisa: atenção dividida entrega serviço porco, e o preço quem paga é a família de quem está do outro lado.
20 minutos, sem edição — do canal @josimarjmv. Se preferir o texto, as duas histórias estão contadas abaixo.
Vou dar minha carteirada antes: eu tenho uma empresa de tecnologia e lido com essa turma há muitos anos. Sou técnico, cuido de marketing, venda e suporte, e no quinto dia útil eu tenho que pagar a conta. Já passaram quase 400 pessoas trabalhando comigo. Não tenho um processo trabalhista — pelo contrário, eu é que processei gente que rompeu contrato com a gente.
Falo isso porque o que vem agora não é teoria de coach. São dois casos que aconteceram comigo, e eu conto porque comecei a receber relato de gente com o mesmo problema. Se você reconhecer alguém aqui — um freelancer seu, alguém da sua família ou você mesmo —, é exatamente essa a intenção.
Muitos anos atrás eu comecei fazendo sites. A empresa cresceu, o volume de serviço aumentou e chegou aquele ponto clássico: tem serviço demais, mas ainda não dá pra contratar alguém fixo. O que a gente faz? Contrata freelancer. Isso foi bem antes da era da IA.
Peguei um cara indicado por uma escola — passou por lá, fez curso de informática, se destacou. Fiz uma reunião pessoalmente com ele e ele virou meu freela oficial: fixo, trabalhando na casa dele, sem cobrança de horário. O combinado era simples e por reunião: o que fazer, como fazer e a data de entrega. Pronto.
Projeto 1. Entregou certinho. Sem drama.
Projeto 2. Patinou. "Agarrou aqui, complicou demais" — na época a gente usava Joomla. Atrasou uns 15 ou 20 dias. E o nome que estava na frente do cliente era o meu, não o dele.
Projeto 3. Maior. Aí eu já entrei com fases no contrato: fase um em x dias, fase dois, fase três. A fase um já agarrou feio e veio muito errada.
E olha o tipo de erro: não era dificuldade técnica. Era falta de atenção — não ler o que foi proposto, ignorar o que ficou acertado nas reuniões. Parece que a pessoa não está com a cabeça boa, não consegue focar direito.
Antes que alguém mais experiente venha com "ah, mas está exigindo demais, informática precisa de tempo": eu dava o tempo. Meu cliente pedia prazo, e o prazo que eu passava pro cliente era o que ele mesmo tinha pedido. Quando ele precisava de mais, ele falava — filha precisando disso, esposa sem trabalhar — e eu esticava. Não era prazo apertado. Era outra coisa.
Eu sou meio doido, gente. Um dia peguei o carro sem falar nada e fui na casa dele, num bairro afastado. Não avisei que ia.
A esposa dele estava varrendo a porta de casa, com o portão aberto. Eu lembro disso como se fosse hoje. Ela me conhecia e até agradecia, porque eu estava ajudando a levar o sustento pra dentro daquela casa. "O fulano está lá dentro, pode ir lá."
Fui caladinho, sem me anunciar. Cheguei no ambiente de desenvolvimento dele e o cara estava colado no computador. "Bom dia, fulano." Ele olhou, alt+tab, trocou a tela.
Falei: "Tá bom, não precisa falar nada não. Eu entendi por que não entrega."
E o recado que eu dei pra ele naquele dia serve pra você que está jogando agora, trabalhando pra você mesmo, pros outros ou só procrastinando: você está passando o jogo na frente da sua filha. Na frente da sua esposa, que está lá fora com uma vassoura varrendo a casa em que você mora. Isso é molecagem com eles. Se você quer ser moleque com você, pega sua mochila, sai de casa e vai se ferrar sozinho — mas não ferra a vida de quem depende de você.
O segundo caso é de um colaborador que fazia suporte noturno. Também faz muitos anos — e como passaram centenas de pessoas pelo suporte da empresa, não dá pra saber de quem eu estou falando.
Ele começou a cometer gafes grandes. Falta de atenção, uma atrás da outra. Até que a gente pagou uma passagem pra ele ir a uma reunião no sul do país. Uma licitação. Ele chegou na cidade um dia antes, dormiu lá, estava tudo combinado, acordado, treinado — e chegou cinco minutos atrasado na reunião.
Em licitação isso não tem recurso: marcou 9h, você chega 9h01, está desclassificado. A gente gastou um dinheirão pra ele ir e perdeu tudo. Aí vem a amuleta de sempre: o trânsito, a chuva, a avó, a mãe. Reparei numa coisa ao longo da vida: quando a desculpa começa com avó e mãe, tem 50% de chance de ser mentira. Todos que eu peguei na vida usavam avó e mãe.
Esse tipo de falha é inaceitável, e ele foi desligado. Não coloquei justa causa, fiz os acertos que tinha que fazer. E só depois, quando a gente pegou o equipamento dele de volta, é que apareceu o motivo: pornografia em quantidade absurda, consumida em horário de trabalho noturno, no computador da empresa.
Tinha material pra justa causa. Eu não fui por esse caminho porque sabia de questões pessoais dele e porque o dinheiro ia fazer mais falta pra esposa dele do que pra ele. Liguei pra ela, avisei o motivo real da demissão pra ele não chegar em casa contando outra história, e falei que não ia ser por justa causa. Foi assim.
Se você olhar os dois de longe, o roteiro é o mesmo — e ele começa muito antes de alguém desconfiar de qualquer coisa:
Vício em jogo é um mal gigantesco da galera de TI. Não estou inventando: pausa aqui, vai no Reddit e olha a quantidade de desenvolvedor usando o fórum quase como divã pra falar que tem esse problema e não consegue parar. É gente demais.
E não é só jogo. Pode ser bebida, pornografia, qualquer tipo de vício — e não é exclusividade de quem trabalha em casa: pega quem trabalha em local afastado, quem faz horário diferente, quem tem pouca supervisão. A Organização Mundial da Saúde inclui o transtorno por jogos eletrônicos na CID-11, com três critérios: controle prejudicado sobre o jogo, prioridade crescente do jogo sobre outras atividades e continuação mesmo com consequências negativas — tudo isso com prejuízo relevante na vida pessoal, familiar ou de trabalho e o padrão evidente por pelo menos 12 meses. Ou seja: existe nome, existe critério e existe tratamento.
Aqui vale a ressalva honesta: eu não sou psicólogo e não estou diagnosticando ninguém. Estou contando o que eu vi e apontando o caminho — tem terapia pra isso. E a única pessoa que não enxerga que está viciada costuma ser o próprio viciado; quem enxerga é todo mundo em volta.
Outro ponto que ninguém liga: muita gente de TI já convive com dificuldade de atenção. Jogo e pornografia em horário de trabalho pioram isso de forma brutal — tiram a energia, tiram a concentração, deixam a cabeça confusa e a ansiedade sobe.
Essa é a ladainha favorita, e agora ela ganhou uma roupa nova: enquanto a IA escreve o código que você mandou ela escrever, você joga. Vamos combinar uma coisa?
Se você joga enquanto trabalha, você entrega um serviço porco. Porco é o serviço sem cuidado, com um monte de coisa passando batida — seja em infraestrutura, seja em layout, seja em design. Nada que você faça na vida, sem foco, vai prestar.
Existe quem consiga fazer três, quatro coisas ao mesmo tempo? Existe. Pouquíssimas pessoas. Não pegue uma minoria de gênios que você por acaso conhece — ou de quem ouviu falar — e ache que todo mundo se encaixa nesse perfil. A esmagadora maioria não consegue, e isso é fisiológico, não é preguiça de acreditar.
Nada do que vem abaixo cura vício de ninguém — isso é trabalho de profissional de saúde. O que essas travas fazem é encurtar o tempo até o problema aparecer, pra você não descobrir só quando o cliente já está na sua cola:
Esse é o mesmo raciocínio de quem tem processo de verdade em produção — o assunto de como eu perdi o medo de subir em produção: você não confia na sorte, você monta o processo que faz o erro aparecer cedo e barato.
Eu já fui muito doido, irresponsável, moleque. Já fiz um monte de besteira na vida e quebrei cinco vezes — algumas por molecagem, outras por arriscar demais. Consegui tampar quase tudo, eu acho. Não tenho problema nenhum em falar isso; não sou perfeito.
A minha virada veio quando nasceu meu primeiro filho. Olhei pra mim, olhei pra mãe dele e falei: "cara, não dá. Se eu continuar desse jeito, que tipo de pai eu vou ser?" Então procura uma força interior sua e se espelha nela. Toda hora que der vontade de fazer besteira — e besteira é jogar fora a única coisa finita que você tem, que é o seu tempo —, pensa no seu filho, na sua filha, na sua mãe, em quem depende de você. Ou em você mesmo.
Não deixa a vida passar pelos seus olhos pra depois você olhar pra trás e falar "que vida medíocre que eu tive". Principalmente você que tem talento. O mundo do sucesso é feito, na maioria, por gente extremamente esforçada, não por gente extremamente inteligente — se você juntar as duas, sai da frente. Então não joga o seu talento no lixo.
Dói romper padrão, dói romper rotina, demora. Mas hábito é um negócio que se adquire fazendo primeiro com esforço extremo, até chegar o dia em que você nem vê mais que está fazendo. E:
Procure terapia. Tem terapia pra vício. Dói, demora, mas dá resultado.
Não desista no primeiro psicólogo. Eu já fiz terapia com várias pessoas ao longo da vida — teve vez de ir no terceiro, no quarto, até achar quem me fizesse bem. Tem um monte de vertente diferente.
Fuja de quem só concorda com você. Psicólogo que dá tapinha nas costas é o pior tipo que você pode ter. O bom traz alternativas baseadas na experiência dele — se eu estou procurando ajuda, é porque sozinho eu não dei conta.
Atividade física. Ansiedade se acaba com atividade física; é saúde básica. Cuidando do corpo, você cuida da cabeça.
É hora de ser adulto. Passa sua família na frente, seus filhos na frente, o seu futuro na frente — pra que o seu futuro não passe na frente dos seus olhos e pare por aí.
Quer montar o processo em vez de contar com a sorte? Contratação, fases, entrega e produção de verdade são o dia a dia de quem vive disso. É esse o miolo das nossas imersões: Imersão de Sites pra quem vive de fazer e vender site, e Imersão de SaaS pra quem vai subir o próprio produto. Veja as quatro imersões →
Baseado no vídeo do canal @josimarjmv publicado em 29/08/2026, com transcrição própria das legendas do vídeo. Os critérios da CID-11 são da Organização Mundial da Saúde. Este texto é relato de experiência, não orientação clínica nem jurídica.